Quarta, 06 de janeiro de 2010
Marcus Viana
“Se o mundo é grande demais, sou Minas Gerais”
Marcus Viana: O futuro é tão verde e azul. O sfilhos dos filhos dos filhos
dos nossos filhos verão (Foto: Guilherme Cunha)
“Adoro permear os temas ecológicos e espirituais em meus trabalhos. Esse sentimento de interação com o Universo é inevitável, somos parte de um todo. A minha música é o meu jeito de me manter ligado à energia maior da criação”. As palavras do compositor e multi-instrumentista Marcus Viana revelam muito de sua história. Autor de grandes sucessos, suas músicas, letras e sons são universais, combustível perfeito para o romance cósmico, sideral. E, não por acaso, se eternizam em cenas da TV e viajam de boca em boca, de assobio em assobio, por Minas e pelo mundo afora.
Entre suas trilhas de maior sucesso estão as das novelas ‘Pantanal’, ‘O Clone’ e ‘Terra Nostra’; as minisséries ‘Kananga do Japão’ e ‘Chiquinha Gonzaga’; além dos filmes ‘Filhas do Vento’ e ‘Olga’. Sobre a criação do grupo Sagrado Coração da Terra, lançado em 1979, Viana resume: “A proposta era criar uma atmosfera de rock sinfônico progressivo universal, mesclando elementos barrocos e tendo como alicerce uma missão filosófica de ecologia e espiritualidade.” Sucesso inquestionável.
Marcus nasceu em BH, numa família de músicos. O pai era flautista, maestro e foi assistente do grande mestre Villa-Lobos. Trilhando a sina familiar, ele atuou como violinista na Orquestra Sinfônica de Minas e, nos anos 80, fez várias turnês e gravações com Milton Nascimento e outros integrantes do Clube da Esquina. Hoje, tem mais de 50 CDs lançados, incluindo música instrumental, clássica, infantil e new age.
Em permanente estado de criação, Marcus, pai de Olívia, de 19 anos, e João Pedro, de 14, mantém uma produtora e distribuidora de música independente, a Sonhos e Sons, no bairro Serra, em BH, onde divulga o trabalho de outros artistas. “O homem é a ponte entre o céu e a terra. Precisamos entender essa grande responsabilidade para nos relacionarmos melhor com o outro, com o planeta”, alerta. Confira, a seguir, trechos de algumas de suas canções. Recados certeiros que falam direto ao coração. Ao nosso e ao da Terra!
Minas
“É o fundo do meu quintal. É broa de milho e o gosto de um bom café. É cheiro e colo de mãe. É roseira branca que a vó semeou no jardim. Se o mundo é grande demais, sou carro de boi. Sou canção e paz. Sou montanha entre a terra e o céu. Sou Minas Gerais.”
“São águas, montanhas e um fogão a lenha. A cerâmica e o canto do Jequitinhonha; são igrejas, são minhas. É o barroco. É Ouro Preto, é maria fumaça. Êta trem bão mineiro!”
“Diamantina, Caraça, Gruta de Maquiné, Cascadanta caíndo, Congonhas do Campo, São João del-Rei, Sabará, Tiradentes. Igrejinha da Pampulha, minha Belo Horizonte.” (Pátria Minas – 2007)
Liberdade
“Nada que nos prenda. Nada que limite. Nada que acorrente o nosso sonho ao chão. Nada que escravize os nossos pensamentos, pois o amor dá asas e nascemos pra voar. Tudo que nos solte. Tudo que liberte. Tudo que nos faça saudáveis e felizes. Tudo que ilumine o corpo, o coração e a mente, pois o amor dá asas e queremos é voar. O universo nos espera e o futuro é agora!” (Asas – 1984).
Serras
“Mais bela que mil diamantes, brilhando no sol da manhã. Serras azuis, uma joia do céu, no anel das montanhas geraes. Pode um amor verdadeiro resistir ao vendaval das guerras inglórias, das lutas da história, da dor, fruta amarga do mal?
“Que força, que estranha magia, leva o homem à mulher? Sonho, paixão, fantasia. É o jardim do Éden se ela te quer. Quem dera no fim dos meus dias meus cabelos brancos pousar aos pés dessas serras, juntinho a ela. Que mais pode um homem sonhar?
Cidade grande
“Rios de gente, nuvens de fumaça que escondem a luz da manhã. Rugem os motores da grande cidade, que abafam a canção dos pardais. Um mundo tão grande assim não pode caber nas mãos pequenas do amor, que carregam cada dia pequeninas sementes, os sonhos humildes que a cidade grande escondeu na sombra dos arranha-céus. O mundo é pequeno demais pra conter a imensidão do amor, as lágrimas da estrela mãe, oceano infinito, que aos poucos abre fendas nos coracões de pedra, nos muros desse velho mundo.”
Alerta terreno
“Habitantes das grandes cidades ouçam a voz dos últimos índios no coração das últimas matas. Ouçam cantar a última Iara nos rios, nos mares, nos gritos das baleias e sereias. Habitantes das grandes cidades ouçam a voz dos mestres e sábios. Vejam sinais que chegam no espaço, sigam as pegadas que deixo passar. As pistas, ruínas, os restos dos impérios submersos.”
“O Grande Espírito quer falar. O Grande Espírito da Terra. A voz de Manitu, Tupã, Senhor dos Homens e das Feras. Mãe das fontes de água pura, onça pintada, grande sucuri. Conheço o brilho das grandes cidades. Conheço o brilho do ouro dos homens. Meu coração sangra a todas as idades, sonhos e impérios se erguem e somem. Todas as feridas abertas na Terra, todos os venenos jogados nos mares, todas as loucuras, doenças e guerras. O sangue e as lágrimas dos justos não se perderão! A não ser pra Terra!”
“Como só os olhos de um louco podem ver, passam as raças e as estações, o planeta se rompe na dor de um parto, entre continentes que desmoronam em novas terras que surgem do oceano, e ao retorno dos deuses do espaço, acendem-se as luzes de nossa memória.”
Floresta
“O uirapuru cantou pra mim sua última canção. Iara me mostra em que igarapé mora o último boto rosa. O incêndio vermelho levou a última orquídea azul. Curumim encantando, guardião da floresta, me leva à Eldorado, onde os sonhos verdes se guardam e ninguém pode tocar.”
Andorinhas
“Amo os peixes e os bichos da água. Amo as aves e os bichos do céu. Amo as flores e os seres da Terra. Tudo o que vive e se move nela. Há sempre andorinhas por onde eu vou. Brincam no vento, nas asas do amor. Amo a vida em toda a extensão.”
“Há um São Francisco em meu coração. As pessoas, as plantas e os animais são canteiros do mesmo jardim. Querem a alegria, o amor e a paz. Ao beijo da vida todos dizem sim.”
Semente
“Pra quem tem a luz do amor acesa no peito, nada é duro, nada é triste. Espanta a noite, toca o medo. Mãe natureza, me ensina a ser humilde, a ser pequeno. Beber água pura da vida, me afastar de todo o veneno. Abrir a porta, o celeiro, os tesouros do coração.”
“Vem ver rolar a cachoeira, água limpa do ribeirão. Deixa encharcar a semente, luz da vida no fundo do chão. Como o amor transforma a gente, como o Sol, a escuridão.”
Lágrimas dos Anjos
“Quando os corações dos puros amam cala a imensidão. O espaço e a eternidade erguem seu véu. Todas as coisas vivas se aquecem, todos os olhos se iluminam com a luz de um outro céu. Corações selvagens, quando batem de paixão, acordam toda a natureza, fazem a vida renascer. Florestas que queimaram voltam a se vestir de verde e as flores e as fontes que secaram ressuscitam ribeirões.”
“Corações selvagens, quando ardem de paixão, incendeiam a noite, o tempo e cegam sóis. Estrelas são as lágrimas dos anjos a chorar, por não terem o corpo e a vida e não saberem o que é amar.”
Lua e loucura
“Correm em minhas veias tempestades. Viajo em nuvens de fogo por estradas, campos e cidades. Sou relâmpago nos olhos do povo. Estrela cadente riscando o céu. Não deixa morrer esse sonho de amor. Diz quem resiste a uma paixão constante, eterna como a luz do Sol, cruzando espadas, homem, mulher. O branco e o negro, o raio e o trovão!”
“Minha estrada é a cauda de um cometa. Nas noites de lua sou lobo. Tenho amigos em todos planetas. Mas, no mundo dos homens, sou louco.”
“A chama do amor cegou meus olhos. Só vejo teu rosto em cada esquina. Tua ausência é como a fome. Seguir tua luz, teu rumo, é minha sina. Noites perdidas vagando ao luar. Sonhos guardados no fundo do peito. Por quantas vidas irei te buscar. Estrela do tempo me ensina a esperar. Diz quem resiste a essa paixão. Quente, indomável, força da vida. Cruzam o espaço, planetas e sois. Vontade e destino, os deuses e nós!”
Heróis planetários
“Quem são esses vencedores que enfrentam as feras na arena? E cheios de força e bondade encaram a morte e não temem? São os bem-aventurados. Abençoados dos deuses. Revivem tudo o que tocam, transmutam, curam, transformam.”
“Quem são arautos do reino que renasce verde das cinzas. Quem sustenta o peso do mundo, quem gira a roda da vida. São os heróis do planeta, mansos herdeiros da terra. Repartem o pão e o vinho, tirando leite das pedras.”
“Quem são esses mensageiros, homens viajantes de aquarius? Trazem recados dos deuses, religam almas e mentes. São essas luzes humanas, faróis de fé e esperança. Atam o céu e a terra, memória viva do amor.
Amor e vida
“Ah! Se pudéssemos contar as voltas que a vida dá prá que a gente possa encontrar um grande amor. É como se pudéssemos contar todas estrelas do céu, os grãos de areia desse mar. Ainda assim...”
“Pobre coração o dos apaixonados, que cruzam o deserto em busca de um oásis em flor, arriscando tudo por uma miragem, pois sabem que há uma fonte oculta nas areias. Bem-aventurados os que dela bebem, porque para sempre serão consolados.”
“Somente por amor a gente põe a mão no fogo da paixão e deixa se queimar. Somente por amor movemos terra e céus, rasgando sete véus, saltamos do abismo sem olhar prá trás. Somente por amor a vida se refaz. E a morte não é mais prá nós!”
Paz
“Se os corações e as mentes se unirem num grande anel com a força da paz, a luz do amor que aquece as estrelas irá nos iluminar. A vida é tão breve e há tanto por fazer, por que então matar e morrer? Crianças da África, crianças da América, crianças da Ásia, Europa e Brasil, crianças da Terra herdarão a paz! Herdarão a paz!”
Saudade e amor
“Às vezes eu tenho uma leve impressão, às vezes é uma bruta certeza de que a nossa vida na Terra não é bem uma viagem de férias. Nascemos pelados, sem nada, sozinhos,
como fogo do Sol nos olhinhos de neném. E ninguém pode nos consolar da fome enorme que é viver, da imensa dor que é nascer na Terra.”
“Saudade da luz das estrelas... saudade... estrela. Tudo vem, passa por nós e se vai. Sonhos e planos, fracassos, vitórias. O bem e o mal, pesadelos e sonhos bons. Nada mais restará na corrente dos anos, que ainda tentamos deter a todo custo nas mãos.”
“Se tudo e todos que amamos se vão, meu amor, segura firme a minha mão. A mente e o corpo tão breves são ilusões. Só restará o coração, a vela de um barquinho no oceano infinito do tempo a vagar.”
Novo país
“Órfãos do sonho Brasil busquem os restos nas sobras da vida, nas cinzas da esperança. As brasas da chama que nunca apagou. Venham inventar um novo país, colar pedaços de sonhos de amor. Basta de escuro e espadas de fogo. Que os anjos nos abram os portões do paraíso.”
O transceder
“Anjos sussurando lendas do azul e os bichos da mata ouvindo o uirapuru. Pela mão do índio me deixei levar até onde as crianças querem ir brincar. No jardim das fadas. na mansão da luz. Cachoeira de água pura me lavou. Mãe d'água apagou as marcas da cruz meus olhos se abriram e enxergaram. O Grande Ser, Deus das florestas, das montanhas, pradarias, savanas. O Grande ser, Deus dos oceanos, dos vulcões, cordilheiras, desertos, geleiras. O Deus de longos cabelos de estrelas que são nossas vidas. Constelações são anéis em seus dedos.”
Casa paterna
“De cada riso e dor, de cada espinho e flor, construo a casa do meu Senhor. Com o que o mundo abandonou, de cada pedra do chão, construo o templo do coração. A cada dia que vem a cada dia que vai, ergo em mim a casa de meu Pai.”
Está escrito
“Já estava escrito no tempo e no espaço, que a minha alma e a tua uma luz seriam. Já estava escrito pelos milênios, que no sagrado fogo da paixão nos consumiríamos. Sol do deserto queimando a areia. Tua presença é água que preserva a vida. Pomba selvagem no azul da alma. Teu amor é luz que ilumina e cega.”
“Já estava escrito e Allah o sabe, que a serpente mágica do amor nos faria deuses. Está escrito, antes dos tempos, que a vida vale apenas quando o amor nos toca.”
Verde e Azul
“São como veias, serpentes, os rios que trançam o coração do Brasil, levando a água da vida do fundo da terra ao coração do Brasil. Gente que entende e que fala a língua das plantas, dos bichos. Gente que sabe o caminho das águas das terras, do céu. Velho mistério guardado no seio das matas sem fim. Tesouro perdido de nós.Distante do bem e do mal, filho do Pantanal.”
“Lendas de raças, cidades perdidas nas selvas do coração do Brasil, contam os índios de deuses, que descem do espaço no coração do Brasil, redescobrindo as Américas quinhentos anos depois. Lutar com unhas e dentes pra termos direito a um depois. Vem de um milênio o resgate da vida do sonho do bem. A terra é tão verde e azul. Os filhos dos filhos dos filhos dos nossos filhos verão. O futuro é tão verde e azul. Os filhos dos filhos dos filhos dos nossos filhos verão.”
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