Terça, 05 de janeiro de 2010

Apolo Heringer, médico, ambientalista e criador do projeto Manuelzão

“O Manuelzão precisa morrer”

Cíntia Melo - redacao@revistaecologico.com.br



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Apolo Henriger:

Apolo Henriger: "Sou peixe de Piracema"

Ele lutou contra a Ditadura Militar e foi procurado como terrorista por todo o Brasil. Preso e exilado passou 12 anos sem ver a família. Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), época em que ainda acreditava nos propósitos políticos. Formou-se em Medicina, percorrendo várias partes do mundo nesse ofício. Em 1997, ajudou a criar o Projeto Manuelzão, uma revolução nascida na Faculdade de Medicina da UFMG, fruto do Internato Rural, por meio do qual estudantes desenvolviam atividades de medicina preventiva e social.

O projeto escolheu como foco de atuação a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, buscando romper com práticas assistencialistas para melhorar as condições ambientais e a qualidade de vida das populações. 

Em 2003, após a expedição “Manuelzão Desce o Rio das Velhas”, nasce a Meta 2010: navegar, pescar e nadar no Rio das Velhas em sua passagem pela região metropolitana de BH. Encampada pelo Estado, tornou-se projeto estruturador do Governo de Minas. Embora afirme ter encontrado no Manuelzão sua plenitude profissional, unindo a Medicina com a política, o social e o ambiental, Apolo afirma que o projeto já ultrapassou seu prazo de validade. “A história se faz por ondas e a onda Manuelzão já deu o que tinha de dar. O projeto foi crescendo, ficou poderoso e agora está muito fácil e cobiçado. O Manuelzão precisa morrer”.

O ambientalista recebeu a Revista ECOLÓGICO em sua casa para uma longa conversa, entremeada de lembranças, argumentações e reflexões. O tempo todo esteve presente em sua fala o estilo ardoroso. Palavra que, talvez, defina bem o jeito Apolo de ser. 

REVISTA ECOLÓGICO: QUAIS SÃO AS SUAS ORIGENS?

APOLO HERINGER: Nasci no Rio de Janeiro em 1943. Minha mãe era da Região do Caparaó, oriunda de uma colônia alemã. Já meu pai tinha origem portuguesa, daí o Lisboa, numa mistura bem curtida com índios e mulatos oriundos de Salvador e da Chapada Diamantina. Essa turma residiu por um tempo em Caetité (BA) e no Norte de Minas, em Salinas. Sou de família numerosa. Meus pais tiveram 13 filhos. Todos ainda estão vivos, inclusive minha mãe, com 90 anos, dona Iraci Heringer.

E SUA FORMAÇÃO RELIGIOSA?

Meus pais eram protestantes e minha formação religiosa até os 17 anos foi essa. Resolvi levar Jesus a sério e me afastei de todas as igrejas chamadas cristãs. Até que um dia, deixei a Igreja Presbiteriana Protestante, em que fui criado, sem saber para onde ir. Saí e entrei em depressão. Estava me sentindo perdido, como se estivesse sem GPS.

FOI NESSA ÉPOCA QUE PARTICIPOU DA GUERRILHA?

Renasci como esquerda no Movimento Estudantil e achei que seria fácil resolver os problemas das injustiças sociais e políticas. Mas a chance de vitória era muito pequena e a morte, uma probabilidade elevada. A luta armada foi um sacrifício total de meus sonhos de vida comum, profissional e familiar, para uma aventura política e existencial em nome da revolução social. Condenei a revolução e fui preso no Golpe Militar. Vivi episódios de grande dramaticidade que me marcaram profundamente e me refizeram a alma.

PODE RELATAR UM DESSES MOMENTOS?

Sobrevivi durante cinco anos com salário mínimo na periferia do Rio de Janeiro, convivendo com a miséria e fazendo feira-livre para comprar alimento mais barato. Não podia conversar muito com os moradores da região. Morava em um barracão e via corpos deixados na Baixada Fluminense pelos esquadrões da morte. Temia ser identificado, pois eu era procurado pelo Regime Militar. Minha foto estava espalhada em locais públicos pelo país. Perdi muitos companheiros e amigos fuzilados; outros foram torturados e estão desaparecidos até hoje.

E A SUA FAMÍLIA?

Agentes secretos da policia política e das Forças Armadas assediavam minha família em busca de informações; telefonemas e cartas eram censurados. Diziam a meus pais que eles criaram um terrorista criminoso. Tive anorexia psicogênica e passava dias sem me alimentar direito. Cheguei a pesar 64 quilos. Guardo tudo isso no fundo da alma. E passei a repensar a idéia que tinha sobre a sociedade humana, a política, a economia e a violência.

VOCÊ SE TRANSFORMOU COM O QUE VIVEU?

Voltei completamente transformado e para melhor. Rejeitei coisas que não levam à reconstrução da mentalidade cultural e da vida social aqui na Terra. Hoje, penso num mundo sem fronteiras, desconfio das ideologias muito “fervorosas” e acredito que vale a pena resistir e viver, pois o mundo pode ser melhor e é para todos.

QUAL ERA A FILOSOFIA POLÍTICA NA ÉPOCA?

As pessoas eram mais transparentes, não falavam mentiras em função de um fim. Hoje, são capazes de fazer coisas absurdas e o fim está dentro de suas cabeças. A política virou uma área de penumbra.

AJUDOU A CRIAR O PT, MAS NÃO QUIS CARGO POLÍTICO. POR QUÊ?

Foi numa época em que ainda acreditava nos propósitos políticos. Mas, preferi me afastar da política institucional. Não me interessa. Ficaria doente. Opto por ser um cara de opinião. Você está me entrevistando por isso. Não dependo de ninguém. Fiz minha casa com meu trabalho, meu salário. Tenho a vantagem de não estar com o rabo entre as penas e de ter uma visão crítica dos governantes.

QUANTOS FILHOS VOCÊ TEM?

Três, que pertencem à odisséia biológica do Universo. Somos meio que usados nessas misteriosas tarefas.

POR QUE ESCOLHEU CURSAR MEDICINA?

Lembro de ouvir, desde pequeno, algumas pessoas da família dizer: “Esse menino vai ser médico”.

COMO FOI A CARREIRA?

Trabalhei na França, Bélgica, África, Argélia... Fui clínico, pneumologista e até hoje sou professor de Medicina na UFMG. Não sou um médico que ficou rico com a profissão, porque nunca cobrei uma consulta. Não tinha coragem. Ganhava o salário que o hospital em que trabalhava me pagava.

SENTIU-SE REALIZADO NESSA PROFISSÃO?

A realização plena, pessoal e profissional, veio com o Manuelzão. O projeto permitiu que eu usasse minha inteligência e conhecimento a favor da sociedade. Não visava a ganhar dinheiro, nem medalha ou cargo. Não queria ser deputado, prefeito, nada. Até hoje sou assim e estou satisfeito com o que sou. Quero ser eu mesmo, o que hoje é coisa difícil. Somos influenciados por família, religião, televisão. Pela disputa por cargo e dinheiro. É aí que acabamos abrindo mão da nossa identidade para virar sombra. Não quero ser sombra.

QUE FILOSOFIA GUIOU O MANUELZÃO?

A mudança da mentalidade das pessoas do mundo inteiro. Queríamos unificar, integrar os movimentos, cada um mantendo o seu colorido e lutando para despoluir todas as águas doces do mundo. E, com essa mobilização social pelo meio ambiente e também por uma mudança da mentalidade, tentaríamos mudar a política econômica e a filosofia humana. No lugar de ser tudo em função do ser humano seria tudo em função da vida.

SURGIU, ENTÃO, A META 2010...

Que hoje é basicamente uma meta de tratamento de esgoto pela Copasa. Infelizmente, não envolveu os empresários. Eles não tiveram sensibilidade para apoiá-la como algo exemplar. O Manuelzão não conseguiu o apoio dos empresários, embora eu tenha pedido demais; nem das prefeituras.

NÃO HÁ O QUE COMEMORAR?

Talvez a vitória da Meta 2010 seja o fato de termos alcançado 50% do que previmos. Foi bom, porque se ela não existisse, não teríamos nada. A Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) publicaria todo ano o relatório de impacto ambiental, as pessoas viriam tudo piorar, iriam tomar cerveja e cuidar de suas vidas. Nós revertemos isso. Dissemos: ‘Vamos fazer alguma coisa’.

O QUE PRETENDIAM?

Uma mudança de atitude para sairmos do fatalismo e tentar mudar o mundo, fixar data. Ensinamos o governo a trabalhar por metas. Mas hoje o Manuelzão nem é citado. O governo rouba nossos créditos, enquanto poderia fazer a propaganda: “um governo a reboque da sociedade civil”. Quando coloca o nome do Manuelzão é bem pequenininho.

COMO ESTÁ O MANUELZÃO?

O Manuelzão precisa morrer. Mas proponho que antes ele reproduza. Que passe seu DNA para inúmeros movimentos e ONGs, para que cresçam em outros lugares. É a chance de que 10% de suas sementes germinem. A história se faz por ondas e a onda Manuelzão já deu o que tinha de dar. Se não morrer, o projeto vai ser degradado. Ninguém ultrapassa o prazo de validade. O Manuelzão foi crescendo, ficando poderoso e agora está muito fácil e cobiçado. Pronto para se institucionalizar.

MAS ANTES QUE ISSO ACONTEÇA...

Acho que o Manuelzão deve preservar seu nome e marca como uma referência a ser estudada. Temos que, com o tempo, ações inatacáveis que fizemos sejam conspurcadas.

O MANUELZÃO CONSEGUIU A MOBILIZAÇÃO QUE PRETENDIA?

A mobilização se fez em torno de uma proposta teórica que permitiu a mobilização de cientistas e técnicos, ultrapassando a luta de classes, o pobre e o rico.

SE FOSSE PARA CRIAR UMA NOVA META, QUAL SERIA?

A internacionalização do Manuelzão. Agir globalmente e pensar localmente. Promover o II Seminário Internacional de Rios, já que toda a população do planeta vive em torno da água. Unir todos os movimentos pela revitalização de rios, como um projeto de revitalização política, ética, moral e ambiental do planeta.

O QUE PENSA DO DISCURSO DE QUE O HOMEM DEVE SALVAR A NATUREZA?

O Al Gore defendendo o meio ambiente é o filósofo do imperialismo como categoria econômica e conseguiu ficar bem na foto posando assim. Como? Ele tira as relações sociais para fora da questão e a biodiversidade também. Assim, podemos ser ambientalistas, plantando eucalipto e cana no Cerrado, por exemplo. Ou seja, reduzo a questão ambiental à captura de carbono. Tem melhor filosofia que essa? Ficar bem na foto, transformando toda a riqueza da vida em capturar carbono e ainda dizer que está salvando o planeta? Isso é uma vergonha.

QUEM GOVERNA HOJE É A ECONOMIA?

Sim. Teria de ser governada, mas governa, porque comprou os políticos que se prostituíram. A política perdeu a moral e o mundo está desgovernado. O desmatamento é uma prova dessa loucura. Transformar os rios em esgoto é outra. Usar transgênico e agrotóxico também. Sem falar na criminalidade produzida pelo poder econômico. O ser humano luta para sobreviver, mas não tem direito de matar plantas e bichos por isso.

QUAL A MELHOR DIREÇÃO?

O ambientalismo que tenda para uma alimentação vegetariana ou consumo menor de carne, por exemplo. Diminuição do desmatamento e plantio de cana e eucalipto em áreas já degradadas, beneficiando a pequena propriedade e a agricultura familiar. Tínhamos de comprar eucalipto e cana de produtores privados em terras já desmatadas e zerar o desmatamento. E plantar árvore com o coração; se for só para ganhar crédito de carbono, sem biodiversidade, na monocultura, não adianta.

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS O ASSUSTAM?

Tem muita picaretagem nessa questão das mudanças climáticas. Isso é bom para a indústria de aviação e hoteleira. O que tem de congresso de mudança climática hoje... As pessoas viajam de avião pra lá e pra cá e é aquela comilança, com coffee break toda hora. Por que não conversar sobre o tema, tomando um chá e caminhando pela praia?

O CALOR E AS FORTES TEMPESTADES EM BH NÃO SÃO UM REFLEXO DO AQUECIMENTO GLOBAL?

Há fenômenos que são cíclicos. Sempre houve calor. O calor de BH pode ser por causa do asfalto e da quantidade de prédios que há hoje na cidade, bloqueando a corrente de ar que havia antigamente.

EM QUE ESTÁ TRABALHANDO HOJE?

A UFMG me concedeu o privilégio de fazer defesa direta de minha tese de Doutorado por notório saber. Em no máximo dois anos vou publicá-la, contando tudo o que vivi. Quando as futuras gerações chegarem, vão saber por que tal rio está poluído, quais os responsáveis por isso, etc. E também vou contar sobre a Transposição (do Rio São Francisco).

COMO VOCÊ SE DEFINE?

Sempre parto do geral para o particular. Essa é minha característica. Na Medicina sempre procurei o social, o ambiental e a questão política. Sou uma pessoa de fibra. Fui prezo aos 18 anos pela Ditadura Militar. Rompi com a Igreja Protestante dos meus pais, quando vi que era tudo mentira e opressão. Em 1964, fui preso. Depois exilado. Participei da luta armada, voltei do exílio, meu pai morreu (eu estava fora), fundei o PT. Fui curtido na luta. Sou peixe de piracema.

O QUE É ESSENCIAL AO SER HUMANO?

Ideias. São Paulo disse: “Nós seremos salvos pela fé e não pelas obras”. Achava que essa fala era insensibilidade dele para com os pobres, mas compreendi que ele estava tentando dizer que o que vai nos salvar é a concepção, o imaginário, a nova teoria. O que vai salvar o mundo não são as obras, mas as ideias.

EM QUE ACREDITA?

A humanidade vai caminhar pela Ciência, pela Filosofia, pela imaginação e pelo coração das pessoas.

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