> Edições Anteriores > A paixão e morte da Amazônia > A PAIXÃO E MORTE DA AMAZÔNIA

Quinta, 10 de maio de 2012

Trabalhadora próxima à líder escoltada é assassinada em Rondônia

Dinhana Nink deu entrevista sobre a quadrilha dois meses antes de sua morte. Ameaçadas, outras famílias da comunidade tiveram que fugir

Ana Aranha - publica@gmail.com



font_add font_delete printer
Foto: Ana Aranha/Agência Pública

Foto: Ana Aranha/Agência Pública

Dois me­ses de­pois de dar en­tre­vis­ta à Pú­bli­ca, Di­nha­na Nink, 27 anos, foi as­sas­si­na­da em Ron­dô­nia.  Ela foi uma das pou­cas en­tre­vis­ta­das que de­nun­ciou a qua­dri­lha sem me­do de mos­trar o ros­to: “Bo­te meu no­me aí, eu vou fa­lar sim. Eles man­da­ram ca­lar a bo­ca, mas eu não ca­lo. Vou ter a co­ra­gem da Nil­ce e de­nun­ciar quem me amea­ça”, dis­se.
Em res­pos­ta à sua co­ra­gem, Di­nha­na foi as­sas­si­na­da com uma ba­la no pei­to na ma­dru­ga­da do  dia 30 de março. O cri­me acon­te­ceu na fren­te de seu fi­lho de 6 anos, Tia­go. O pai de Di­nha­na, pri­mei­ro a che­gar de­pois do cri­me, en­con­trou Tia­go lim­pan­do o san­gue do ros­to da mãe. Di­nha­na dei­xou mais dois fi­lhos, um de se­te e ou­tro de dez anos.
Ape­sar da ca­ra de va­len­te, sua con­di­ção já era frá­gil na épo­ca da en­tre­vis­ta, em ja­nei­ro. Tia­go brin­ca­va ao la­do da mãe, no chão da sa­la. Eles es­ta­vam mo­ran­do de fa­vor em vi­la No­va Ca­li­fór­nia (Ron­dô­nia) des­de que sua ca­sa foi quei­ma­da em um in­cên­dio cri­mi­no­so em no­vem­bro.
Na en­tre­vis­ta, Di­nha­na fa­lou so­bre amea­ças que re­ce­bia des­de que de­sa­fiou um ho­mem li­ga­do à qua­dri­lha de pis­to­lei­ros que to­ma con­ta da re­gião. Ela mo­ra­va no as­sen­ta­men­to Ge­deão, mu­ni­cí­pio de Lá­brea, sul do Ama­zo­nas. Sem ne­nhu­ma es­tru­tu­ra de po­li­cia­men­to, o lu­gar é des­ti­no de ma­dei­rei­ros ile­gais, que con­tra­tam pis­to­lei­ros pa­ra ga­ran­tir que nin­guém im­pe­ça o rou­bo de ma­dei­ra.
Des­de que a lí­der Nil­ci­le­ne ga­nhou es­col­ta da For­ça Na­cio­nal, di­ver­sas fa­mí­lias pró­xi­mas a ela es­tão sen­do amea­ça­das de mor­te. Al­gu­mas ti­ve­ram que fu­gir pa­ra não ter o mes­mo des­ti­no de Di­nha­na. É uma for­ma de dei­xar a lí­der iso­la­da.
Di­nha­na não ti­nha en­vol­vi­men­to com a as­so­cia­ção. Que­ria ape­nas to­car a vi­da e pro­te­ger seu ne­gó­cio, um pe­que­no bar e mer­cea­ria den­tro do as­sen­ta­men­to.
Mas ela sa­bia de­mais. En­quan­to tra­ba­lha­va, ou­via con­ver­sas so­bre as ati­vi­da­des das ma­dei­rei­ras. “O po­vo be­bia e fa­la­va”, ela dis­se à Pú­bli­ca. “Tem mui­ta gen­te lá que vi­ve de ma­dei­ra. Ser­ra de dia, e ti­ra de noi­te. Eles di­zem que tem que ter cui­da­do na ho­ra de en­trar com o ca­mi­nhão de noi­te. Se a po­lí­cia pe­ga, não po­de pre­ju­di­car os do­nos. Se pe­gar, não po­de de jei­to ne­nhum fa­lar quem era o do­no da ma­dei­ra”.
Sua mor­te es­tá re­la­cio­na­da à for­ça do cri­me or­ga­ni­za­do que se for­mou na re­gião, gra­ças ao co­mér­cio ile­gal de ma­dei­ra com­bi­na­do com a au­sên­cia do Es­ta­do. Di­nha­na se me­teu com a pes­soa er­ra­da e de­ci­diu de­nun­ciar as agres­sões, em um lo­cal on­de a po­lí­cia não age. Pa­gou com a vi­da.
Tu­do co­me­çou em no­vem­bro, quan­do um de seus clien­tes no bar, Jhe­fer­son Ar­raia Sil­va, be­beu de­mais e co­me­çou a pro­vo­car bri­ga. Ela pe­diu que fos­se em­bo­ra, ele fi­cou agres­si­vo. Di­nha­na não era mu­lher de fi­car ca­la­da. Apa­nhou, mas tam­bém ba­teu. De­pois re­gis­trou tu­do na po­lí­cia.
“Eles não gos­ta­ram que eu fui na po­lí­cia e, na se­ma­na se­guin­te, a mãe de­le co­me­çou a man­dar re­ca­do”, Di­nha­na dis­se. Su­zy Ar­raia Sil­va, mãe de Jhe­fer­son, é ci­ta­da em di­ver­sos re­la­tos dos pe­que­nos pro­du­to­res ru­rais da re­gião pe­la pro­xi­mi­da­de com a qua­dri­lha. “Ela di­zia que não ia fi­car em bran­co, que ia quei­mar mi­nha ca­sa, que ia ter vin­gan­ça”.
As­sus­ta­da, Di­nha­na de­ci­diu mu­dar pa­ra No­va Ca­li­fór­nia, a vi­la mais pró­xi­ma, já no es­ta­do de Ron­dô­nia. Mas, en­quan­to pro­cu­ra­va lu­gar pa­ra fi­car, sua ca­sa e bar no as­sen­ta­men­to fo­ram quei­ma­dos, com tu­do den­tro. “Fi­cou tu­do no chão, pre­to, quei­ma­do. O free­zer fi­cou miu­di­nho. Mi­nha dor maior foi ver os me­ni­nos re­vi­ran­do as cin­zas. Eles fo­ram ca­tan­do coi­sas pa­ra le­var em­bo­ra. Mas eu não dei­xei, ta­va tu­do quei­ma­do”.
Di­nha­na pro­cu­rou a For­ça Na­cio­nal. “Eles dis­se­ram que só po­dem pro­te­ger a Nil­ce, me in­di­ca­ram a po­lí­cia. Fui no pos­to da PM de No­va Ca­li­fór­nia, eles dis­se­ram que não po­dem fa­zer na­da por­que são de Ron­dô­nia e lá é Ama­zo­nas”.
No Bo­le­tim de Ocor­rên­cia re­gis­tra­do na Po­lí­cia Ci­vil de Ron­dô­nia, ela fa­la das amea­ças. Se­gun­do o do­cu­men­to, Su­zy “te­ria di­to que iria eli­mi­nar três pes­soas da lo­ca­li­da­de”. Di­nha­na era uma de­las. Mas a po­lí­cia na­da fez so­bre o ca­so.
Em en­tre­vis­ta, o sar­gen­to Fá­bio Ca­bral de Li­ma, do pos­to de No­va Ca­li­fór­nia, dis­se ter re­ce­bi­do mais de 20 re­gis­tros de amea­ças de mor­te da área do as­sen­ta­men­to Ge­deão só no úl­ti­mo ano. “Nós es­ta­mos de mãos ata­das em re­la­ção a tu­do que acon­te­ce lá por­que não é ju­ris­di­ção de Ron­dô­nia”, dis­se.
“Es­se gru­po man­da na re­gião. Eles co­me­tem cri­mes, per­se­guem e di­fa­mam quem os de­nun­cia”, diz Nei­de Lou­ren­ço, coor­de­na­do­ra da Co­mis­são Pas­to­ral da Ter­ra do Ama­zo­nas. “En­quan­to o Es­ta­do não se fi­zer pre­sen­te e co­lo­car um pos­to po­li­cial, o cri­me vai con­ti­nuar di­tan­do a or­dem”. Com a palavra, o governo Dilma.

www.apublica.org

Leia também:

A paixão e morte da Amazônia

"Eles vão me matar"

"A ordem era tocar fogo com a gente dentro"

"Tomaram a frente, as fundiárias e depois as costelas"

"Tem muita gente sumida, enterrada lá para dentro"

Trabalhadora próxima à líder escoltada é assassinada em Rondônia

"Justiça e merda aqui é a mesma coisa"

Compartilhe

Comentários

Nenhum comentario cadastrado

Escreva um novo comentário
CAPTCHA Image
Trocar Imagem



Outras matérias desta edição