Sexta, 11 de maio de 2012

De agradecer de joelhos

Os desafios para manter o paraíso natural da Reserva do Tumbá, Unidade de Conservação (UC) que fica dentro da Mina Mutuca, em Nova Lima

Cíntia Melo - redacao@revistaecologico.com.br



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Foto: Fernanda Mann

Foto: Fernanda Mann

Com 169 hectares, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Tumbá localiza-se na Área de Proteção Ambiental  Sul da Região Metropolitana de Belo Horizonte (APA-Sul RMBH), local marcado por intensa atividade minerária e ocupação humana. Os desafios para que uma região como essa, tão próxima da capital mineira,  explorada  economicamente e  densamente povoada, seja mantida, são muitos. E vão desde o investimento em brigadas de incêndio, até o levantar incessante de cercas (constantemente derrubadas por trilheiros) para delimitá-la e protegê-la de  invasores.
A manutenção de espécies de nossa flora e fauna não depende da conservação de uma área apenas, mas de outros ambientes naturais, de preferência interligados, para atender, por exemplo, mamíferos e aves de médio e grande porte como os gatos-do-mato e os gaviões, que se deslocam bastante em busca de alimento, abrigo e refúgio para a reprodução. E também espécies de pequeno porte, que se dispersam durante o ano todo pelos mesmos motivos.
Só isso já daria para explicar a importância de se proteger a Reserva do Tumbá, já que  é um dos únicos corredores  ecológicos para o Parque Estadual do Rola-Moça e outras áreas localizadas na Cadeia do Espinhaço. A RPPN  atua como importante elemento de conexão da paisagem, promovendo a proteção e propiciando a geração de conhecimento sobre biodiversidade. Além de servir de passagem para vários animais, ainda funciona como abrigo para diversas espécies da região, incluindo as endêmicas e as ameaçadas de extinção.
O Plano de Manejo da RPPN foi elaborado pela empresa Bicho do Mato, contratada pela Vale. No estudo, feito a partir de diferentes levantamentos realizados na reserva e em suas proximidades, complementados com dados disponíveis na literatura, foram anotadas, por exemplo, 178 espécies de aves para a área. O total representa 23% do já registrado em Minas Gerais. Já em relação ao número de mamíferos são 65 espécies, valor que corresponde a 27% do percentual descrito para o Estado.
Quanto à ocorrência de espécies endêmicas, tanto com distribuição restrita no Brasil quanto nos biomas Cerrado e Mata Atlântica, destacam-se entre as aves, o pula-pula-assoviador (Basileuterus leucoblepharus) e a saíra-ferrugem (Hemithraupis ruficapilla); e, entre os mamíferos, as cuícas (Marmosops incanus e Philander frenatus), o rato-da-árvore (Rhipidomys mastacalis), e os macacos guigó (Callicebeus nigrifrons), considerado endêmico da Mata Atlântica, e o mico-estrela (Callithrix penicillata), do Cerrado. Entre as espécies inventariadas, apenas a lontra (Lontra longicaudis) é considerada ameaçada de extinção em Minas Gerais, na categoria Vulnerável. O guigó é classificado como Quase Ameaçado.

Longe dos olhos, perto do coração
Haja fôlego para proteger Tumbá! Por trás de sua natureza aparentemente bonita e tranquila, há mais desafios a serem vencidos do que  poderia imaginar nossa vã filosofia. A pecuária, por exemplo, é uma das preocupações. Os animais de criação encontrados com frequência no entorno da  RPPN são constantemente vigiados pelos agentes de proteção para certificar que não estão invadindo a área. Além disso, é realizado um trabalho de notificação junto aos proprietários para que eles se responsabilizem pelo cercamento desses animais.
Flávio Krollmann é presidente da ONG  Pro-mutuca. Ele diz que o fato de a APA-Sul abrigar várias Unidades de Conservação, como é o caso de Tumbá, acaba sendo um “chamarisco” para a expansão imobiliária. “Hoje é moda morar perto de áreas verdes.Os lançamentos de empreendimentos residenciais por aqui não param. A conscientização de moradores dos condomínios já existentes na região é uma de nossas rotinas”, diz.
Krollmann é engenheiro civil e empresário. Ele mora na Vila Alpina (de frente para a reserva) e conta que todos os dias quando chega do trabalho ajoelha e agradece a Deus por poder avistá-la: “Rezo para que este paraíso esteja sempre aqui”, diz.     
A UC também é alvo constante de motoqueiros, jipeiros e trilheiros. O rastro que essa turma costuma deixar, mesmo com as intensas campanhas de conscientização da Vale, não é dos mais ecológicos.
“Tumbá não está aberta à visitação. Mesmo assim, eles arrombaram cercas, entram sem permissão,abrem trilhas na mata, afugentam a fauna e deixam lixo. São latinhas de cerveja, guimbas de cigarro e outras coisas mais. Já tentamos conscientizá-los, mas é difícil”, desabafa Letícia Voigt, analista de meio ambiente da mineradora.
 A área de entorno da RPPN é considerada área de risco pela Polícia Militar de Nova Lima, portanto, por questões de segurança, todo o trabalho de gestão é realizado em conjunto com a vigilância ambiental Vale.” Ando o tempo todo acompanhada. Não desgrudo de “minhas” RPPNs, mas procuro ficar perto do meu pessoal”, ela garante.
O cuidado com o cercamento da reserva, o monitoramento e a fiscalização não impedem que a área continue sendo invadida e cortada por trilhas que são utilizadas para campeonatos de motocross, causando danos à vegetação campestre e ao solo de Tumbá. Os “cortes” deixados pelos “esportistas” sobre o verde das montanhas que recobrem a RPPN estão lá para comprovar o estrago.
A insistência em frear a turma barulhenta e pouco ecológica que invade e degrada a reserva, suprimindo a vegetação, causando processos erosivos expressivos e dificultando a conservação do lugar, está mais viva que nunca! “Até enduro eles fazem aqui dentro. Arrombam cadeados e passam pelas cercas sem a menor cerimônia... Será que não enxergam a erosão e o estrago que estão causando?”, indaga Letícia.
É possível que a turma de trilheiros resista ao entendimento de que o melhor presente da natureza muitas vezes seja ela mesma, intocada, vista de longe. Simplesmente pelo significado e o poder que ela tem de equilibrar, biológica e emocionalmente, nossas vidas quase sempre alteradas e repletas de ruídos.
Letícia é perseverante! “Já estamos com uma nova campanha de conscientização pronta. Com a união da Vale, Polícia Ambiental e  ONGs, nós vamos usar da lei para barrar os invasores agora”, diz.


FIQUE POR DENTRO
Riqueza que vem das Gerais

 Minas colabora para que o Brasil detenha o título de maior biodiversidade do mundo. A riqueza de biomas como Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, associada aos Campos Rupestres e outros ambientes naturais contribui para que dezenas de milhares de espécies de plantas e animais habitem o estado.  
Só de aves, são 785 aproximadamente 41,5% do total de espécies brasileiras. Destas, 54 espécies são endemismos da Mata Atlântica e 20 do Cerrado. A Reserva do Tumbá está na zona de transição entre estes dois biomas.
A Mata Atlântica apresenta endemismos, como o surucuá variado (Trogon surrucura), o macuquinho (Eleoscytalopus indigoticus) e a cigarra-bambu (Haplospiza unicolor). Já no Cerrado, há espécies endêmicas como o capacetinho-do-oco-do-pau (Poospiza cinerea) e o tapaculo-de-colarinho (Melanopareia torquata).  
Embora ainda não haja um inventário completo da flora local da Reserva do Tumbá, na lista apresentada em seu Plano de Manejo há registro de 256 espécies de angiospermas (plantas com flores)e 93 de pteridófitas (samambaias e grupos relacionados).  
Espécies árboreas encontradas na região são exploradas para a utilização de suas madeiras, como o angico-vermelho (Anadenanthera peregrina) e o jacarandá (Dalbergia villosa). A família com maior número de espécies ameaçadas é a Orchidaceae, que muitas vezes sofre com coletas predatórias para comercialização e cultivo. Além de Mata de Galeria e Campo Limpo, mais de 73% da vegetação que recobre a Reserva do Tumbá é de Floresta Estacional Semidecidual, caracterizada pela presença de espécies caducifólias (plantas que perdem as folhas nas estações do outono e inverno).

 

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