Segunda, 04 de junho de 2012

O Anjo Exterminador da Ditadura

Este pode ser o outro nome de Dom Paulo Evaristo Arns, catarinense de Forquilhinha, filho de colonos que chegou a diplomar-se em doutor no mais alto grau de distinção acadêmica - o três “Honorable” pela Universidade de Sorbonne, em Paris, França.

Alexandre Sallum - redacao@revistaecologico.com.br



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Foto: Divulgação

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Este pode ser o outro nome de Dom Paulo Evaristo Arns, catarinense de Forquilhinha, filho de colonos que chegou a diplomar-se em doutor no mais alto grau de distinção acadêmica - o três “Honorable” pela Universidade de Sorbonne, em Paris, França. Foi uma das mais respeitadas e importantes lideranças do Brasil, principalmente durante a ditadura, que combateu sem trégua, com repercussão mundial. Logo que tornou-se arcebispo da cidade de São Paulo em 1970, cargo em que permaneceu por 28 anos, ele vendeu o Palácio Episcopal por cinco milhões de dólares e empregou o dinheiro na construção de 1.200 centros comunitários na periferia. Defendeu líderes sindicais nas greves, apoiou a campanha pelas eleições diretas e visitou presos políticos nas celas do DOPS em São Paulo.  Juntamente com o reverendo presbiteriano Jaime Wright e o Conselho Mundial de Igrejas conseguiu o financiamento para o livro Brasil Nunca Mais,  relato dos  métodos  das torturas, retiradas dos arquivos do Supremo Tribunal Militar. Depois da aposentadoria por idade em 1998, Dom Paulo retirou-se da vida pública e vive atualmente em um mosteiro em Taboão da Serra. Há dois anos perdeu a irmã, a médica Zilda Arns no terremoto do Haiti. Defensor incansável da paz, ainda hoje, aos 90 anos é um ativo militante guerreiro da liberdade. Recentemente emitiu comunicado sobre o que deve ser discutido  na Rio + 20.  A ECOLÓGICO selecionou alguns pensamentos de Dom Paulo Evaristo Arns. Confira.

RIO + 20
“Para a conferência que discutirá a saúde do planeta, da qual o Brasil será o anfitrião, é preciso que se discuta, primeiramente, o que se quer dessa reunião, pois o homem enfrenta uma encruzilhada, com ameaças nunca antes vistas. Mais do que uma crise ambiental enfrentamos uma crise civilizatória. Precisamos de uma ciência e uma tecnologia a favor do homem e da natureza. Não o contrário. Porque a ciência não é neutra.”

NATUREZA
“Tenho hoje a impressão de que meus irmãos, meus pais e meus amigos nos ligavam de tal forma à natureza e aos homens, que tudo se transformava em expectativa constante e em realizações mais ou menos felizes. No rio Mãe Luiza, a  água era tão pura que nos permitia divisar uma moeda que estivesse a dois ou três metros de profundidade. Divertia-nos ao nadar nas pequeninas enseadas ou a travessia da cachoeira,e  a pesca de cascudo debaixo das pedras ou do cará e da traíra nos momentos mais calmos. Aliás,nunca apreciei demais essa pesca. Contrariava a minha natureza tirar da água um bichinho tão elegante, buliçoso e ágil. Água sem peixe era como casa sem filho.”

SÃO FRANCISCO DE ASSIS
“De São Francisco, o que mais me empolgou foi a sua loucura evangélica. Igualmente repassava pelo coração a natureza que ele cantava. Agora, a natureza daquele Paraná. O pinheiro tão triste para outros, para mim é o cálice eternamente verde a recolher o orvalho sempre alvo numa taça que transforma tudo em vida. Os animais, desprezados normalmente pelos filhos de colonos naqueles anos de adolescência assumiram o ‘significado do ‘cordeiro de São Francisco, imagem de Cristo’,do peixe surdo que entende um sermão, da cigarra que acorda para rezar.”

CAPELÃES MILITARES
“Uma vez, ao sair da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Aclimação, em companhia do pároco, monselhor Manuel Neves, uma pessoa ali sentada se levantou e veio ao nosso encontro com uma rapidez e movimentos tão agitados, que recuamos um pouco. Exclamou para mim ‘Dom Paulo, tem perdão para mim? Consegui transferência, mas não consegui sossego!”

“Depois de tentar acalmar aquela pessoa, relatei para o monsenhor Neves, em poucos traços, o que havia acontecido. Ele então me revelou ‘Os capelães militares que antes lhe eram desfavoráveis , hoje estão a seu lado, porque sabem que o senhor só procura assegurar a defesa da verdade e da vida.”

JUSTIÇA E PAZ
“Procuramos formar em São Paulo  a Comissão Justiça e Paz, que já existia em Roma recém-fundada por Paulo VI.A Providência Divina nos guiou para o professor e jurista da USP, .Dalmo de Abreu Dallari.A partir daquele momento, a cúria de São Paulo tornou-se atração para todos os refugiados, tanto do Brasil quanto da Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e, mais tarde, Chile.”

REAÇÃO  DA IGREJA
“A Igreja do Brasil mostrou poucas reações seguras contra torturas, desaparecimentos e mesmo prisões arbitrárias. De uma, no entanto, me recordo com orgulho. O presidente Costa e Silva viria à capital dos paulistas a fim de entregar a medalha de mérito ao cardeal-arcebispo local, dom Agnelo Rossi. Monselhor Benedito de Ulhoa Vieira, então pároco da PUC, advertira o cardeal e seus bispos auxiliares de que esse gesto seria um insulto aos jovens estudantes e um possível rompimento deles com a Igreja. A medalha foi desencomendada e o gesto teve grande repercussão.”


JIMMY CARTER
“Quando o presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter visitou o Brasil em 1978, no Rio de Janeiro, convidado pelo seu secretário a acompanhá-lo no carro que o levaria ao aeroporto, coloquei-me ao lado do próprio presidente norte-americano e fiz-lhe com toda clareza uma pergunta quase audaciosa: ‘É verdade o que aqui  se conta que os Estados Unidos, ou melhor, a CIA ensinou os nossos militares a torturarem os presos sem eles deixarem marca?’ Como de costume, Carter se virou para a esposa Rosalyn e lhe perguntou numa altura que me permitisse ouvir:’O que posso responder a uma pergunta tão justa quanto incômoda?’. Ela afirmou, num tom muito tranquilo: Diga ao senhor cardeal de São Paulo que isso pode ter acontecido.’Para outros a resposta poderia parecer evasiva. Para mim foi a certeza do sim”.

O ENCONTRO COM MÉDICI
“Consegui como pretexto para a audiência um belo documento pontifício. Era  a encíclica de Leão XII, Rerum Novarum em edição luxuosa. Junto, o relatório com provas de tortura e testemunhos de vítimas. Esperei hora e meia ou mais. Quando entrei na sala e apresentei a Médici o presente, este foi recusado com gesto brusco e um seco ‘não aceito’.Tentei explicar que estava ali em nome de todos os bispos do Estado de São Paulo. Argumentei que eles não acreditavam que o presidente do Brasil estivesse informado sobre os desmandos do esquadrão do terror que operava na cidade e no Estado. Foi como detonar uma bomba. A autoridade suprema da nação, até aí carrancuda mas silenciosa, começou a tremer em todo o corpo, socando a imensa mesa com seus punhos cerrados e elevando a voz ao nível de ameaça ‘Não arredaremos um só milímetro na luta contra os terroristas! O senhor vem defender os bandidos que matam inocentes, sequestram embaixadores e ameaçam ministros. Seu lugar é na sacristia”.

 AMEAÇA
“Naqueles anos, dom Aloísio Lorscheider e dom Ivo Lorscheiter, respectivamente presidente e secretário-geral da CNBB levavam adiante a tentativa de diálogo entre militares e a cúpula da CNBB na chamada Comissão Bipartite. Em 25 de julho de 1972 fui convocado para esse diálogo. Como cheguei cedo ao aeroporto, acabei embarcando antes do previsto. No Rio não me esperava ninguém, porque me antecipara ao horário da chegada. Quando entrei na sala, percebi certo sobressalto entre os militares. Mais tarde, contou-me o major- médico Luís que estavam planejando um ‘acidente’ para mim entre o aeroporto e a sede da CNBB, o que seria facílimo de realizar se eu tivesse chegado na hora do rush carioca. Nunca investiguei, nem quis investigar a versão do Luís, hoje já falecido, homem íntegro como tantos militares graduados que conheci”.


TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO
“A opção preferencial evangélica em favor dos pobres, consequencia imediata da Teologia da Libertação, determinou o objetivo geral da CNBB e das atividades de toda Igreja no Brasil. Ela obedecia ao seguinte princípio: os pobres precisam ser preparados de tal maneira que possam tomar a sua história na mão. Devo dizer que, atualmente, a Teologia da Libertação está sob uma camada de cinzas.Mas, na Igreja, ela continua acesa em quase todos os corações dos que buscam justiça, não como teoria, mas como atitude pastoral concreta”.


LEONARDO BOFF
“O cardeal Ratzinger, quando professor, aprovara a tese de Leonardo Boff. Ele era considerado um dos teólogos mais avançados da Igreja. Logo depois, ao tornar-se prefeito da Congregação da Doutrina da Fé no Vaticano, o cardeal condenou a mesma tese e proibiu  Boff de escrever, assumindo uma posição extremamente conservadora. Ao perguntar-lhe como tal coisa era possível, ele me respondeu ‘O julgamento depende do lugar em que estamos”.

“Na universidade a tese de Boff era primorosa e, por isso a aprovei.Quando foi publicada no Brasil com o título Igreja, carisma e poder,encontrou-me em outro lugar, e por isso a condenei’.Infelizmente o silêncio foi imposto a Leonardo Boff, causando uma reação negativa nas muitas pessoas que haviam lutado contra a censura na imprensa. Agora era Roma que se tornava censora”.


BRASIL NUNCA MAIS
“Quando decidimos publicar a obra Brasil Nunca Mais com o relato objetivo das torturas, e conseguimos, para tanto, a cópia de quase todos os processos julgados pelo próprio sistema militar, Philip Potter (secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas) teve a coragem invulgar de escrever comigo o prefácio.Ele também arcou com os custos que a nossa Arquidiocese de São Paulo jamais poderia assumir naquela obra. Assim o nome dele e o do Conselho Mundial de Igrejas permanecerão unidos a nós no relato mais objetivo de toda a história brasileira, dos imensos sofrimentos daqueles que lutaram em favor de um Brasil democrático”.


Fontes: Livro “Da Esperança à Utopia: Testemunho de uma vida”, Dom Paulo Evaristo Arns, Rio de Janeiro, Editora Sextante, 2001. www.redeatual.com.br, 16/04/2012, Reportagem Virginia Toledo.

 

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