Segunda, 04 de junho de 2012
A gente quer comida, diversão e arte
A cultura como o quarto pilar do desenvolvimento sustentável, somado aos eixos econômico, ambiental e social
Arte: Cristiane Mendonça
Já diziam os Titãs: “Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte...”.
Em 1987, o trio Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sérgio Brito compunham um dos hinos da geração de 1980. Passados 25 anos, a mensagem continua viva e mais atual do que nunca. E o que isso estaria querendo nos dizer? Talvez que, em pleno 2012, os desejos e vontades daquela geração continuem como necessidades e carências da geração presente.
Essa discussão ou, pelo menos, a constatação de que ainda estamos longe de reconhecer o valor da cultura como um dos pilares para avaliar o passado e planejar o futuro vem ganhando força com a proximidade da Rio + 20.
Para esta conferência, o Governo elaborou um documento intitulado “Contribuição Brasileira à Conferência Rio +20”, no qual insere em sua agenda de debates a cultura como um dos cernes do desenvolvimento sustentável. No entanto, o compromisso político com esta questão ainda está longe de resultar em ações efetivamente transformadoras, que integrem a cultura como estratégia de desenvolvimento dos países.
Temendo que o debate fique apenas no plano das ideias, ministros e altas autoridades de Cultura de nove países sul-americanos, reuniram-se em abril, na cidade de São Paulo, para redigir a “Declaração de São Paulo”. Este documento reivindica às autoridades negociadoras da Conferência Rio+20o reconhecimento da cultura como elemento indissociável na construção da sustentabilidade, presente nos três pilares do desenvolvimento.
Ao se refletir sobre as ações adotadas há vinte anos, na Rio – 92, e no intuito de estabelecer as principais diretrizes para orientar o desenvolvimento sustentável pelos próximos vinte anos, um dos desafios dessa Conferência será articular o processo cultural como prioridade estratégica de desenvolvimento.
A Revista ECOLÓGICO conversou com a economista Ana Carla Fonseca Reis e o antropólogo José Márcio Barros, duas figuras-chave para entender qual a importância que os países dão ao papel da cultura em suas governanças. Ana Carla é autora de vários livros. Entre eles, o ‘Economia da Cultura e Desenvolvimento Sustentável – Caleidoscópio da cultura’ (Editora Manole), primeira obra brasileira sobre o tema, agraciada com o Prêmio Jabuti 2007, e do recém-lançado ‘Cidades Criativas – da teoria à prática’ (Editora Sesi-SP).
José Márcio é autor do livro ‘Comunicação e Cultura nas avenidas de contorno’ (Editora PUC Minas) e organizador dos livros ‘Diversidade Cultural – da proteção à promoção’ (Editora Autêntica) e ‘As mediações da Cultura’ (Editora PUC Minas).
ECOLÓGICO: Como se deu a evolução da tríade financeiro, social e ambiental, com a inclusão da cultura no conceito de desenvolvimento sustentável?
Ana Carla - Ainda é um processo em evolução, já que é uma discussão bastante incipiente. Seu estopim ocorreu em 2001, quando o australiano Jon Hawkes lançou o livro “Quarto Pilar da Sustentabilidade – o Papel essencial da cultura no planejamento público”, ainda sem tradução para o português. Essencialmente, o autor defendia a importância primordial da cultura na gestão pública e seu valor inestimável para avaliar o passado e planejar o futuro. Em setembro de 2002, a proposta da cultura como quarto pilar da sustentabilidade foi o cerne do discurso do então presidente francês Jacques Chirac, durante o Fórum Mundial do Desenvolvimento Sustentável, em Johannesburgo. Integrando a mesa-redonda “Biodiversidade, Diversidade Cultural e Ética”, ele afirmou: “A diversidade cultural (…) deve ser reconhecida como o quarto pilar do desenvolvimento sustentável (…) ao lado da economia, do meio ambiente e da preocupação social.” Porém, os progressos nesse sentido têm sido morosos. A cultura integrou a pauta da economia criativa, mas precisa ser efetivamente incorporada na pauta de desenvolvimento.
Que importância o Brasil dá ao papel da cultura em suas estratégias de governo?
Ana Carla - Creio que tanto o orçamento do Ministério da Cultura, quanto o parco número de reuniões que a presidente já realizou com a ministra são sinais de que no Brasil, a cultura ainda está longe de ser considerada uma prioridade estratégica de desenvolvimento.
O Governo elaborou um documento de Contribuição Brasileira à Conferência Rio +20, no qual insere em sua agenda, a cultura como cerne do desenvolvimento sustentável. O que podemos esperar desse encontro?
Ana Carla - Nesse documento, a cultura não merece mais do que três parágrafos de atenção, sendo que nesse breve texto misturam-se temas como superação do modelo de consumismo, sociedade do conhecimento e da informação, diversidade, cadeias produtivas, economia criativa, desenvolvimento sustentável e cidadania cultural. Espero que o encontro tenha como resultado ao menos uma discussão mais embasada acerca de como esses conceitos se relacionam, para então integrarem a própria pauta de política cultural do país.
José Márcio - Como em outros momentos, é preciso distinguir entre a esfera dos diálogos oficiais e
a esfera dos diálogos da sociedade civil. Na primeira, não tenho grande expectativa de avanços, dado os antecedentes de muita discursividade e pouco compromisso político com a questão do desenvolvimento humano. Na segunda esfera, aí sim acredito que poderemos encontrar um painel de ações criativas, de proposições efetivamente transformadoras e o fortalecimento de redes e comunidades de práticas.
Qual é a importância da cultura no planejamento público de um país?
José Márcio - A cultura é importante, primeiramente, para o ser humano, é por meio dela que nos tornamos, para além de seres vivos, sujeitos sociais. Decorre daí, a centralidade que a cultura deve ter em toda e qualquer política pública. Seja no sentido estrito, políticas culturais, seja como componente de outras políticas.
A cultura passou a integrar a pauta da economia criativa. No entanto, quando falamos de desenvolvimento sustentável , os progressos ainda são demorados. Por quê?
José Márcio - A atual proposta de políticas públicas para a economia criativa, apresentada pelo MinC, contempla duas ideias chaves – a diversidade cultural e a sustentabilidade. A transformação desse conjunto de proposições e idealidades em um plano efetivo de governo é um desafio maior que o próprio MinC, pois, depende da alteração do modelo de política econômica desenvolvido hoje no Brasil. O que se vê na atualidade é quase um cinismo estatal. Por um lado se constrói uma política de economia criativa, por outro, a manutenção do aparente desenvolvimento econômico, que inviabiliza as grandes e médias cidades brasileiras com a opção suicida de centrar o desenvolvimento no consumo de bens poluentes.
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