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Segunda, 04 de junho de 2012

Força Nacional recebe ameaça e recua do sul do Amazonas

Escolta retira a líder rural que protegia e se retira do local do conflito ao descobrir plano de emboscada. Anistia Internacional lança campanha pedindo medidas urgentes

Ana Aranha apublica.com.br



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Foto: Ana Aranha/ Agência Pública

Foto: Ana Aranha/ Agência Pública

De­pois de pas­sar cin­co me­ses pro­te­gen­do Nil­ci­le­ne Mi­guel de Li­ma, a equi­pe da For­ça de Se­gu­ran­ça Na­cio­nal se re­ti­rou da re­gião do con­fli­to en­tre ma­dei­rei­ros e la­vra­do­res no mu­ni­cí­pio de Lá­brea, ao sul do Ama­zo­nas. A lí­der ru­ral Nil­ci­le­ne, amea­ça­da de mor­te por de­nun­ciar o des­ma­ta­men­to, foi re­ti­ra­da de sua ca­sa por sua es­col­ta e le­va­da pa­ra lo­cal man­ti­do em si­gi­lo pe­la for­ça po­li­cial do go­ver­no fe­de­ral.
A de­ci­são foi to­ma­da de­pois que as amea­ças se vol­ta­ram con­tra a pró­pria For­ça Na­cio­nal. “Eles des­co­bri­ram que os pis­to­lei­ros es­ta­vam ar­man­do uma em­bos­ca­da pa­ra ma­tar Nil­ci­le­ne e os po­li­ciais da es­col­ta”, diz Fran­cis­nei­de Lou­ren­ço, coor­de­na­do­ra da Co­mis­são Pas­to­ral da Ter­ra do Ama­zo­nas. Des­de que foi re­mo­vi­da de sua ca­sa, Nil­ci­le­ne per­deu con­ta­to com as fa­mí­lias de sua co­mu­ni­da­de, que tam­bém es­tão re­ce­ben­do amea­ças, e não po­de dar en­tre­vis­tas.
Em res­pos­ta ao re­cuo das for­ças do go­ver­no, a Anis­tia In­ter­na­cio­nal lan­çou uma “ação ur­gen­te” pe­din­do pro­vi­dên­cias ime­dia­tas ao Mi­nis­té­rio da Jus­ti­ça e go­ver­no do Ama­zo­nas. A ação é uma cam­pa­nha in­ter­na­cio­nal que con­vi­da os  mi­lha­res de mem­bros da Anis­tia no mun­do to­do a es­cre­ver car­tas ao go­ver­no bra­si­lei­ro.
A Anis­tia pe­de que o go­ver­no fe­de­ral aja pa­ra coi­bir as ati­vi­da­des ile­gais de des­ma­ta­men­to e gri­la­gem de ter­ra na re­gião, de mo­do a pre­ser­var a ati­vi­da­de ex­tra­ti­vis­ta da po­pu­la­ção lo­cal. E rei­vin­di­ca uma uni­da­de de po­lí­cia per­ma­nen­te pa­ra o sul de Lá­brea e, tam­bém, que as amea­ças e agres­sões fei­tas con­tra a co­mu­ni­da­de se­jam in­ves­ti­ga­das.
“Te­mos no­ta­do que, pa­ra o go­ver­no, é mui­to bo­ni­to co­lo­car um gru­po da For­ça Na­cio­nal por al­guns me­ses no lo­cal do con­fli­to. Mas is­so não mu­da na­da”, diz Tim Cahi­ll, da Anis­tia In­ter­na­cio­nal. “Os cri­mes de­vem ser in­ves­ti­ga­dos e o lo­cal pre­ci­sa de pro­te­ção ime­dia­ta e per­ma­nen­te”.
Há cer­ca de 800 fa­mí­lias vi­ven­do no sul de Lá­brea, on­de não há ener­gia, te­le­fo­ne ou de­le­ga­cia. São la­vra­do­res, se­rin­guei­ros e ca­ta­do­res de cas­ta­nha ca­das­tra­dos no pro­gra­ma Ter­ra Le­gal ou mo­ra­do­res dos as­sen­ta­men­tos Ge­deão e o Cu­ru­que­tê – cu­jo lí­der Ade­li­no Ra­mos foi as­sas­si­na­do em 2011.
A reportagem de Pública, veiculada pela Revista ECOLÓGICO no mês passado, mostrou a violência na região e revelou que, pelo menos em outras duas ocasiões, o Governo Federal recuou quando confrontado pelo poder local. Uma funcionária federal já foi agredida pelos pistoleiros e duas coordenadoras de órgãos fundiários sofreram ameaças de morte.


Cri­me sem cas­ti­go
Des­de 2007, se­te pes­soas fo­ram mor­tas no sul de Lá­brea. To­das es­ta­vam de­nun­cian­do os ma­dei­rei­ros e gri­lei­ros, mas ne­nhu­ma in­ves­ti­ga­ção le­vou a um cul­pa­do. O úl­ti­mo cri­me foi con­tra a tra­ba­lha­do­ra Di­nha­na Nink, 27, as­sas­si­na­da na fren­te de seu fi­lho de 6 anos no dia 30 de mar­ço, em Ron­dô­nia.
Di­nha­na de­nun­cia­va pes­soas li­ga­das aos ma­dei­rei­ros lo­cais. An­tes do cri­me, ela re­gis­trou Bo­le­tim de Ocor­rên­cia na de­le­ga­cia de Ex­tre­ma (Ron­dô­nia), dan­do no­me e so­bre­no­me das pes­soas que lhe agre­di­ram fi­si­ca­men­te, in­cen­dia­ram sua ca­sa e lhe amea­ça­ram de mor­te.
Mais de dois meses de­pois de sua mor­te, nin­guém foi pre­so. Em ofí­cio en­via­do à Ou­vi­do­ria Agrá­ria Na­cio­nal, o de­le­ga­do de Ex­tre­ma diz que es­tá “em­pe­nhan­do os es­for­ços pos­sí­veis den­tro das pos­si­bi­li­da­des des­ta de­le­ga­cia pa­ra ob­ten­ção de ele­men­tos acer­ca das cir­cuns­tân­cias e au­to­ria do ho­mi­cí­dio”.
Pro­cu­ra­do pe­la re­por­ta­gem, o po­li­cial res­pon­sá­vel pe­lo ca­so, Char­les Bu­ton, não po­de res­pon­der pois es­ta­va em Por­to Ve­lho con­ser­tan­do uma via­tu­ra. A re­por­ta­gem foi in­for­ma­da de que o de­le­ga­do tam­bém não po­de­ria aten­der pois o ex­pe­dien­te da de­le­ga­cia en­cer­ra às 14 ho­ras.

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