Terça, 14 de abril de 2009
Crime Sem Perdão
O desabafo da ambientalista Maria Dalce Ricas, vítima da ditadura brasileira e primeira anistiada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, 38 anos depois
Aos dez anos de idade, a menina miúda Maria Dalce Ricas, morava em Jerônimo Monteiro, no Espírito Santo. Mesmo município (olha a coincidência da vida) onde nasceu, do outro lado da mesma e praticamente única rua, o ex-ministro e atual secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas, José Carlos Carvalho). Foi quando ela se insurgiu contra Nicanor Santos, homem rico, dono de uma serraria cujos empregados moravam na beira de um córrego e eram muito pobres: "Fiquei revoltada com aquela situação e iniciei uma campanha na cidade para arrecadar dinheiro e ajudá-los", relembra.
No dia 1º de março de 1964, aos 14 anos, durante uma aula de história, o promotor Rômulo Picharra Silli, no Colégio Rui Barbosa, em Lajinha, Minas Gerais, defendeu o golpe militar dizendo que o presidente João Goulart tinha rasgado a Constituição. "Fiquei indignada e disse que quem havia rasgado a Constituição tinham sido os militares. Ele ficou colérico, gritou comigo e disse que eu deveria ser eliminada, pois um dia seria uma subversiva no país. Adivinhou", recorda.
Em 1971, aos 21 anos, já morando em Belo Horizonte, de onde nunca mais saiu, a presidente do Diretório Acadêmico da Universidade Federal de Minas Gerais, militava no clandestino PC do B, estudava direito e foi presa por policiais militares panfletando contra a ditadura militar na avenida Paraná. "Fui levada para a Praça da Liberdade onde funcionava o Comando da Polícia Militar, me colocaram em uma sala e um oficial me disse que tinha muita pena de gente como eu, vítima de famílias desestruturadas e que precisa de orientação ao invés de se envolver com o movimento estudantil. Mas que a Polícia Militar e o Exército, infelizmente não pensavam assim", rememora a ambientalista.
Dali ela foi levada para o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em um fusquinha com mais quatro homens. "Era 1º de maio, havia muito alvoroço na cidade. Fui recebida pelo Pedro Ivo que me cobriu de insultos e afirmou que eu estava drogada. Mentira, eu nem fumava, quanto mais maconha. Levaram-me para a famosa sala de tortura do terceiro andar e começaram a me fazer perguntas do tipo, quem mais fazia parte do grupo e onde eles estavam. Eram mais ou menos oito ou dez homens do Exército e das Polícias Civil e Militar. Eles me mandaram tirar a roupa. Fiquei só de calcinha", conta Dalce.
Foi quando, continua ela, "o tenente do Exército, Marcelo Paixão de Araújo, me deu um soco no estômago e começou a sessão de tortura que durou toda a noite. Me aplicaram o "telefone", dois tapas com força e simultâneos nos ouvidos, com as mãos em concha. Depois veio choque elétrico nas mãos e nos pés, me obrigaram a sentar em uma cadeira, colocaram um aro de ferro em minha cabeça e jogaram água para que o choque fosse mais "eficiente". A sensação era de que os choques entravam pelos dentes. Depois veio o pau-de-arara, espancamentos, cadeira do dragão, geladeira e roleta-russa. O capitão Rodrigo Dolabella e o tenente Carlos Alberto Del Menezes se divertiam colocando o revólver na minha cabeça e apertando o gatilho. Ele não estava carregado, mas eu não sabia".
A MILITANTE VERDE
Dalce considera que a sua geração teve um papel expressivo na democracia do país, na manutenção da identidade, de manter acesa a chama da liberdade. "Mas hoje questiono as ações dos dirigentes dos partidos políticos na época. Eles não tinham o direito de enviar para as ruas jovens tão despreparados para enfrentar uma polícia disposta a torturar e matar. O que mais tínhamos aguçado dentro de nós era uma ideologia de paz e de um país socialmente justo para todos", diz.
Após 14 meses de prisão, se alternando entre o DOPS, o Presídio de Mulheres e a Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, onde esteve na mesma época que o prefeito Márcio Lacerda e o ex-prefeito, Fernando Pimentel, Dalce foi libertada, mas tinha que ir ao DOPS, três vezes por dia para assinar uma folha de presença. Um ano mais tarde, foi presa novamente e levada para a temida Polícia do Exército (PE), do Rio de Janeiro. "Fui presa porque alguém ouviu falar o meu nome em algum lugar", relembra.
Ao chegar à PE, um dos policiais mineiros, ao entregá-la, disse por duas vezes que ela estava detida. "A insistência do policial me apavorou. Penso que ele quis dizer alguma coisa do tipo: ´não a matem´", relembra.
Dalce foi colocada dentro de um fusca amarelo, junto com outros quatro homens que enfiaram um capuz imundo em sua cabeça e começaram a dar voltas pela cidade. "Diziam que eu seria um presunto bonito, riam e especulavam sobre onde me jogariam". Tortura psicológica. "Depois me levaram para um local que eu não sei onde, me mandaram tirar a roupa e vestir um macacão todo sujo de sangue. Jogaram-me em uma sala, completamente fechada, que já era conhecida de outros presos políticos. Não sabia se era noite ou dia. Alternavam a temperatura, de gelada a hiper quente. Peguei pneumonia. Fui interrogada por dois dias seguidos, mas não me torturaram fisicamente. Depois, me trouxeram em uma veraneio para Belo Horizonte. Nunca mais fui presa", diz aliviada.
A VIDA SE TORNOU DIFÍCIL. Expulsa da Faculdade de Direito, com base no decreto 477, de 1969, enfrentou muitas dificuldades. "Não podia arranjar trabalho porque não tinha bons antecedentes. Eu estava fichada na polícia. Em 1975, a UFMG me chamou de volta, mas eu tinha vergonha de voltar a conviver com os meus colegas. Sentia-me humilhada com a prisão. Passei a cursar ciências econômicas e depois ciências políticas, mas minha real vocação era o direito. Os movimentos estudantis ainda eram atuantes, mas não me envolvi e embora mantivesse minhas idéias de igualdade e liberdade, não acreditava em partidos políticos. A alternativa foi me envolver com os movimentos alternativos de música e teatro", conta.
Como o seu desejo era melhorar o mundo em que vivia, a luta pelo meio ambiente foi inevitável. O assunto ainda era incipiente, mas logo encontrou colegas da Face e Ciências Biológicas que comungavam com a mesma causa e, já em 1978, nascia a Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA), no final do governo Geisel, em um momento em que o Brasil ainda vivia sob o regime militar, com fortes restrições à liberdade individual.
"Éramos tidos como românticos, excêntricos e inimigos do progresso. A Direita nos apelidou de "melancias", verdes por fora, mas vermelhos por dentro. Tivemos de enfrentar atos de repressão e éramos vigiados pela polícia. O governo militar não queria ver a sociedade se organizando para defender seus direitos", desabafa.
Segundo um relatório da Agência Brasileira de Inteligência, órgão que sucedeu o Serviço Nacional de Investigação (SNI), Maria Dalce foi vigiada até 1986. Trinta e oito anos após a sua primeira prisão e as sessões de tortura, a militante verde foi recentemente ao Rio de Janeiro, participar da 2ª.Sessão de Julgamento da Comissão de Julgamento da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça/Caravana da Anistia. O seu processo foi o primeiro a ser contemplado e, por isso, e com decisão unânime dos membros do júri ela foi a primeira anistiada, com direito ainda a uma reparação econômica, de caráter indenizatório, de R$ 60 mil, "por cinco anos de perseguição política".
Emocionada, a relatora da Comissão, Luciana Silva Garcia, acatou integralmente o requerimento. E ainda propôs que Dalce tenha direito de terminar o curso de Direito na UFMG, caso queira, e sem necessidade de vestibular. Ouviu um pedido formal de desculpas do governo brasileiro por todas as injustiças e consequências que sofreu.
Durante dois anos após ter sido libertada, ela lembra que ainda sonhava todas as noites com as torturas. "Mas minha maior sequela foi a insegurança diante da vida. Custei a encarar de frente, mas consegui. Quando olho para trás vejo tudo o que vivi como aprendizado. Foi trágico, cruel e doloroso, mas ouso dizer que isso me fez amar e respeitar ainda mais a vida. É claro que quando me lembro das sessões de tortura, ainda fico revoltada e não perdôo meus torturadores, mesmo porque eles nunca me pediram para perdoá-los. A tortura é um crime sem perdão", sentencia.
Comentários
Nenhum comentario cadastrado
Arquitetura Sustentável
Arquitetura Sustentável
Carta do Editor
Entrevista
Lei Florestal
Lei Florestal
Lei Florestal
Lei Florestal
Lei Florestal
Memória
