Segunda, 07 de agosto de 2017

Na floresta dos cedros de Deus

Líbano oferece surpresas e momentos divinais aos visitantes, como a reserva florestal declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, em Becharre, com cedros de até 35 metros de altura

J. D. Vital - redacao@revistaecologico.com.br



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Reserva natural de cedros próxima a Becharre, no norte do Líbano: paraíso ecológico. Foto: Shutterstock

Reserva natural de cedros próxima a Becharre, no norte do Líbano: paraíso ecológico. Foto: Shutterstock

Só um passeio de barco, por dez minutos, nas águas da Gruta de Jeita vale uma viagem ao Líbano. E olha que são quase 15 horas de voo, com as pernas espremidas no avião da Turkish até Beirute, sua capital.

Em um complexo de cavernas, com nove quilômetros, um rio subterrâneo corre a 1.750 metros de profundidade dentro de um cenário de estalagmites e estalactites formadas há mais de 12 mil anos pela genialidade da natureza. Fotos são proibidas. As colunas calcárias, encorpadas pelo gotejamento da água, criam catedrais e abóbodas de humilhar o gênio do barroco italiano Gian Lorenzo Bernini, autor, dentre muitas obras, da cúpula e do baldaquim da Basílica de São Pedro, em Roma.

Quem conhece o Líbano apenas como a pátria de Amal Alamuddin, a bela advogada que enfeitiçou o coração do ator norte-americano George Clooney, vai levar um susto. Aqui, onde os padres da Igreja Católica podem casar, quatro milhões de habitantes convivem em harmonia apesar da diversidade de religião, representada por cristãos e muçulmanos, mesquitas e igrejas, e da proximidade com o mais conturbado pedaço do mundo formado por Síria, Israel e Palestina.

Esse país, com 10 mil anos de história e apenas 10.452 quilômetros quadrados de área entre o Mediterrâneo e as montanhas, cabe 50 vezes dentro de Minas Gerais. Abriga quatro milhões de habitantes. Fala árabe, francês, inglês e uma mistura dessas três línguas muitas vezes na mesma frase. Uma sucessão de paisagens de gargantas profundas, cantadas pelo poeta da terra Khalil Gibran, exige um coração forte e confiança na habilidade dos motoristas. Porque os veículos margeiam perambeiras em caracol.

O Líbano oferece surpresas e momentos divinais mais profundos que Jeita. A Floresta dos Cedros de Deus é a maior delas. No Vale Santo de Qadisha, povoado de monastérios e da espiritualidade semeada por eremitas da Igreja primitiva e por São Marun, fundador dos maronitas, fica Becharre. Os maronitas seguem um rito oriental em comunhão com o papa de Roma. Ali, a 1.800 metros sobre o nível do mar dos fenícios, os cedros do Líbano se apresentam em toda sua glória e esplendor.

É uma reserva florestal, declarada “Patrimônio da Humanidade” pela Unesco. É vigiada e monitorada pelo governo libanês, com 1.100 árvores remanescentes do pouquíssimo que restou dos tempos em que cobriam 98 por cento do território nacional. Derrubar uma árvore milenar, hoje protegida por para-raios e pela lei, é crime de lesa-pátria, grave como assassinato, punido com prisão e multa.

 

Quantidade colossal

Algumas dessas relíquias, magníficas e longevas como Matusalém, são contemporâneas dos cedros, plantados não muito distantes dali, que três mil anos atrás o sábio Salomão, filho de Davi e terceiro rei de Israel, mandou buscar em Tiro para construir o templo de Jerusalém. O rei Salomão, conta a Bíblia, encomendou ao rei Hiram, de Tiro, no sul do Líbano, uma quantidade colossal de cedros para a construção do templo.

Segundo os historiadores, teriam sido empregados 30 mil trabalhadores para serrar as árvores e outros 70 mil para transportá-las até o porto e de navio até Israel. Atualmente, são necessárias cerca de oito horas de carro para percorrer a distância de 539 quilômetros de estrada entre Jerusalém e Tiro.

Não foi apenas Salomão, cujo reinado durou de 970 a 930 antes de Jesus Cristo, que contribuiu para o quase desaparecimento do cedro do Líbano, reduzido à cobertura de apenas dois por cento do país. Antes dele, os fenícios, que fundaram Biblos, a cidade mais antiga do mundo, serraram as florestas para fabricar navios. E graças aos barcos, resistentes e atrevidos, os intrépidos fenícios dominaram o Mar Mediterrâneo, disseminando cidades mundo afora.

Eles usaram também as toras para o fabrico de sarcófagos, que ainda podem ser vistos no Museu Nacional em Beirute. Os egípcios figuram como clientes preferenciais dos fenícios que forneciam púrpura e madeira. Os tronos dos faraós demandavam mais e mais toras de cedro para atender à frota de barcaças no Rio Nilo, à construção de palácios e confecção de sarcófagos e aos processos de mumificação, mediante o óleo do cedro. 

Não fosse a rainha Vitória, da Inglaterra, o mundo em que vivemos não poderia se maravilhar com os cedros, citados mais de 80 vezes na Bíblia como símbolos da opulência, da resistência e da eternidade. Como no versículo 12, do Salmo 92: “O justo florescerá como palmeira; crescerá como o cedro do Líbano”. Ou no livro dos Cânticos, 5 – 15: “Suas pernas são colunas de alabastro erguidas sobre pedestais de ouro puro. Seu aspecto é como o do Líbano, imponente como os cedros”.

Sensibilizada pelas notícias de que o cedro do Líbano corria risco de extinção, a rainha Vitória mandou construir, com recursos do tesouro inglês, um muro para proteger a espécie em Becharre. Segundo o Ministério de Turismo, quatro das 1.200 árvores ali existentes, com idade entre 1.500 e 2.000 anos, alcançam 35 metros de altura e seus troncos medem entre 12 e 14 metros de diâmetro.

O pioneirismo ecológico de Sua Majestade de Londres deu certo. Hoje, os libaneses cuidam do cedro com idolatria e o código penal. Colocaram o cedro em sua bandeira nacional. E um robusto programa de reflorestamento vem sendo tocado, com apoio da comunidade internacional de origem libanesa, dentre eles o bilionário mexicano Carlos Slim.

 

Bodas de Caná

Padre Silvano Chamoun, um padre jovem e vibrante da Ordem dos Maronitas da paróquia de São Charbel em Campinas (SP), informa que um dos cedros em Becharre tem seis mil anos de idade. São testemunhas oculares veteranas da marcha dos exércitos de Nabucodonosor, de Alexandre Magno e dos romanos, bem como das andanças dos apóstolos como Pedro e Paulo pela região. Até Jesus teria andado por lá. Na época em que fez seu primeiro milagre, convertendo água em vinho numa festa de casamento em Caná, o Líbano integrava o território governado pelos romanos.

Padre Silvano, que optou pelo celibato, organiza, anualmente, viagens de brasileiros ao Líbano. A maioria dos participantes é formada por descendentes de libaneses que, fugindo da invasão turca, vieram para o Brasil em fins do século 19 e início do século 20, a convite do imperador Dom Pedro II.

O monarca brasileiro excursionou ao Líbano em 1876, acompanhado da esposa, dona Tereza Cristina, e de uma comitiva de 200 cortesãos. Ele percorreu, a cavalo, longas distâncias no país, inclusive as ruínas romanas de Baalbeck, onde segundo anotou em seu diário, teve a ideia, hoje politicamente condenável, de escrever seu nome e a data na parede do Templo de Baco.

Em 2015, 139 anos depois de Pedro II, o Grupo Corpo, de Belo Horizonte, apresentou-se no mesmo lugar, na esplanada dos templos de Júpiter e de Vênus, erguidos pelos imperadores romanos Augusto e Nero. Os guias turísticos se encarregam de imortalizar a passagem dos artistas de Minas, sem a necessidade de grafite.

Com forte presença em Minas Gerais, a colônia libanesa no Brasil conta, atualmente, com cerca de seis milhões de descendentes. Em Belo Horizonte, monsenhor Michel Bitar, também celibatário e maronita, zela pela comunidade como responsável pela capela de Nossa Senhora do Líbano, que funciona no Colégio Santa Maria, à Rua Pouso Alegre, 659, no bairro Floresta. Na missa maronita, as partes centrais, consagração e comunhão, são rezadas em aramaico, a língua falada por Jesus.

Padre Silvano chama a atenção para a única capela, pelo que se sabe, dedicada a Deus em vez de a um santo. É uma construção em pedra branca, como a maioria dos prédios populares libaneses. A capelinha está situada bem na entrada da Floresta dos Cedros de Deus que têm esse nome por seu parentesco com a eternidade divina.

 

Sem pressa

O cedro cresce devagar. Sem pressa. Diz-se que nos primeiros três anos suas raízes chegam a crescer até metro e meio, buscando água no terreno rochoso, enquanto a planta mal alcança os cinco centímetros. Trata-se de um crescimento lento, mas firme e permanente. A parcos milímetros por ano. Outras reservas permanecem guardadas a chave e metralhadora: Yay, Tannourine, Ehden, Barouk e Maaser el-Chouf. A de Becharre é a mais importante.

O cedro tem folhagem perene, mesmo no inverno. As árvores, com copas em forma de cone na adolescência, resistem com folhagem verde sob a neve que cobre as montanhas e os vales, em um espetáculo deslumbrante, segundo quem já o viu. A região de Becharre é invadida durante o inverno pelos praticantes de esqui. No verão, torna-se refúgio para o calor de até 40 graus que assola o país.

Líbano significa “brancura da neve e do leite”. Desde a antiguidade, os sheiks que vinham do deserto ou os navegantes do Mediterrâneo maravilhavam-se ao avistar a neve do Monte Líbano, de onde escorriam leite e mel. Os dois produtos animam a culinária local, famosa pela riqueza de iguarias, como o quibe cru, a cafta, a coalhada seca, o homus de grão de bico e por uma infinidade de doces que os restaurantes expõem sobre a mesa para o turista, como a fartura do café colonial gaúcho.

 

Visitante diante de um cedro gigante: morte, vida e ressurreição milenar. Foto: Elmás Vital 

 

Santuário mariano

O encanto, porém, provém da geografia e da história. Dos castelos, fortes e templos levantados pelos cruzados a caminho da Terra Santa. Dos oratórios de Nossa Senhora instalados nas esquinas ao majestoso santuário mariano em Harissa, com a imagem de Nossa Senhora, tal qual o Cristo Redentor do Rio de Janeiro, vela sobre o mar de Beirute. Essa é uma terra de santos católicos, como São Marun, São Charbel, Santa Rafqa e São Nimatullah, todos veneradíssimos pela população. Nem por isso deixa de embalar-se pela sensual dança do ventre e embriagar-se pelo prazer do narguilé, uma espécie de cachimbo árabe.

Aqui viaja-se sempre com o mar à janela do carro. Do outro lado, plantações de oliveira, cerejas, damasco, peras e uvas. Finda a guerra civil, que de 1975 a 1995 promoveu a matança entre cristãos e muçulmanos, o Líbano respira em paz, ainda que em algumas regiões continuem a rufar os tambores do Hezbollah e o ódio contra sírios e israelenses que ocuparam o país em conflitos recentes.

A propósito, se você pretende viajar ao Líbano, preste atenção: não conseguirá entrar se tiver um visto de Israel em seu passaporte. É melhor trocar por um passaporte novo. Os súditos de Salomão e de Hiram não se entendem mais como antigamente. 

 

Fique por dentro:

O cedro-do-líbano (Cedrus libani) é uma árvore nativa da Ásia Menor, de folhas lineares verde-escuras ou azuladas. Da família Pinaceae, pode alcançar até 40 metros de altura. Na bandeira do país, adotada em dezembro de 1943, o cedro foi oficializado como sua árvore-símbolo.

 

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