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Vespa compartilha alimento com a vizinhança


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Pesquisadores da USP constatam que, em ambientes modificados, vespas Polistes satan constroem colônias próximas e colaborativas, que funcionam como uma supercolônia. Foto: Patrick Kennedy

Pesquisadores da USP constatam que, em ambientes modificados, vespas Polistes satan constroem colônias próximas e colaborativas, que funcionam como uma supercolônia. Foto: Patrick Kennedy

Pesquisa revela que espécie de marimbondo usa espaço disponível em ambientes naturais modificados para formar uma única colônia e, dessa forma, explorar completamente a área


02/02/2018

As vespas da espécie Polistes satan, popularmente conhecidas como marimbondo-cavalo, apresentam um comportamento que tem intrigado os biólogos que estudam insetos sociais. Em ambientes modificados, como uma fazenda, essas vespas têm construído colônias próximas umas das outras, em vez de formarem ninhos independentes e distantes uns dos outros, como fazem em paisagens naturais.

Um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com colegas da University of Bristol, na Inglaterra, descobriu que há um fluxo de vespas entre essas colônias e que elas compartilham recursos, como alimentos, colaborando e funcionando como uma supercolônia.

O estudo foi feito com apoio da FAPESP, no âmbito de um acordo com o Natural Environment Research Council (NERC) – um dos conselhos de pesquisa do Reino Unido.

“Observamos que essa espécie de vespa utiliza todo o espaço disponível em ambientes naturais modificados para formar uma única colônia e, dessa forma, poder explorar completamente a área”, disse Fábio Santos do Nascimento, professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da USP, e coordenador do estudo.

Para mapear o fluxo das vespas – encontradas no Sudeste e em parte do Centro-Oeste do país – entre as colônias, os pesquisadores implantaram microchips de identificação nos insetos que circulavam por 15 colônias próximas umas das outras, formando uma supercolônia, em uma fazenda em Pedregulho, no interior de São Paulo.

A análise dos dados coletados apontou que, durante 66 horas de detecção por radiofrequência, 20,9% das vespas fêmeas visitaram mais de uma colônia. “Constatamos que existe um grande trânsito e visitação de vespas entre as colônias”, explica Nascimento.

A fim de avaliar o que possibilitava esse alto nível de visitação – se era uma incapacidade delas de distinguir seus ninhos ou insetos invasores –, os pesquisadores testaram se elas eram capazes de identificar parentes e se as vespas “estrangeiras” em uma colônia eram facilmente aceitas ou sofriam rejeição.

Para isso, tiraram e reintroduziram insetos em seu próprio ninho, colocaram vespas de uma colônia em outra da mesma família ou de famílias diferentes, com diferentes níveis de distância uma das outras, a fim de observar suas interações.

As observações dos dois minutos iniciais de interação entre os insetos revelaram que as vespas tiradas e reintroduzidas em sua colônia (residentes) sofreram menos agressão do que as não residentes, o que revela a capacidade do inseto de identificar seus parentes.

Surpreendentemente, as vespas vizinhas próximas da colônia onde foram introduzidas sofreram um nível de agressão significativamente maior do que as parentes distantes (vespas de outra colônia, mas da mesma família).

De acordo com o pesquisador é como se essas vespas próximas da colônia onde foram introduzidas, mas que não pertencem à família, fossem vizinhos desagradáveis.

A fim de avaliar se vespas estrangeiras, que chegavam a uma colônia de outra família trazendo recursos, como alimento, eram menos rejeitadas pelas residentes, os pesquisadores realizaram um experimento em que introduziram insetos com mel em uma colônia diferente da sua. As observações confirmaram que elas sofriam menores níveis de agressão.

Mudança de comportamento

De acordo com o professor da USP, essa mudança de comportamento e na estrutura social das vespas Polistes satan – em que um grande número de colônias passa a colaborar entre si, em uma vasta rede de cooperação – representa uma forma de adaptação à transformação de paisagens naturais em áreas urbanizadas.

Em um ambiente natural, as colônias desses insetos, que são compostas por entre 50 e 70 vespas, não formam agregados tão grandes como os que os pesquisadores observaram na área estudada em Pedregulho – identificada recentemente como um remanescente de fragmentos do Cerrado.

Até então, entre os insetos sociais, só haviam sido identificadas supercolônias de formigas, como a de formigas argentinas (Linepithema humile) ou as cortadeiras. “As formigas argentinas, que foram introduzidas na Europa no século passado, se tornaram uma praga ao formar colônias monumentais, com um conjunto de genes único”, disse.

Já no caso das Polistes, a formação de supercolônias pode ter aplicações agrícolas, como em controle biológico – a regulação de pragas em uma lavoura por inimigos naturais –, uma vez que as lagartas que servem de alimento para esses insetos são pragas que atacam culturas como o milho, o café e a cana-de-açúcar.

Os pesquisadores pretendem usar essas vespas para controlar a lagarta da broca da cana (Diatraea saccharalis), a principal praga da cana-de-açúcar. “Nossa ideia é fazer alguns experimentos este ano para avaliar se essas vespas conseguem deter a lagarta da broca da cana em sua fase inicial ”, conclui Nascimento.


Fonte: Agência Fapesp


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