Golfinhos

A crescente degradação ambiental da zona costeira, a construção de portos e indústrias no litoral e a poluição dos ambientes marinhos e costeiros são as principais ameaças à conservação dos golfinhos
Luciana Morais - luciana@souecologico.com
Ecológico nas Escolas
Edição 116 - Publicado em: 09/04/2019

Com suas águas marinhas declaradas santuário de baleias e golfinhos por decreto publicado em dezembro de 2008, o Brasil ocupa posição de destaque entre os países que mais adotam estratégias para a conservação desse grupo de animais. Eles são os cetáceos, que incluem algumas das mais carismáticas e, ao mesmo tempo, desconhecidas espécies aquáticas do planeta.

O termo “cetáceo” deriva do grego ketos, que significa baleia ou monstro marinho. Os golfinhos são encontrados em todos os ambientes marinhos do mundo, com exceção dos polos. Algumas espécies vivem em rios, na costa entrando em estuários, em alto-mar e em alguns casos têm ampla distribuição.

No Brasil, os golfinhos mais facilmente encontrados são boto-cor-de-rosa, toninha, tucuxi, boto-cinza, golfinho-nariz-de-garrafa e golfinho-rotador. Das 51 espécies existentes, três estão em perigo de extinção: a toninha, o boto-cinza e o boto-cor-de rosa.

A toninha ou franciscana (Pontoporia blainvillei) atinge cerca de 1,75m e tem cor parda-cinza. Seu bico (ou rostro) é comprido e fino, com cerca de 250 dentes pequenos e também finos, chegando a viver até 20 anos.

Típica das áreas costeiras, a toninha é encontrada desde o Espírito Santo, no Brasil, até a Província de Chubut, na Argentina, sempre em águas rasas que, em geral, não passam dos 30 metros de profundidade. Embora difícil de ser avistada, em alguns locais a toninha é mais facilmente encontrada, como na Baía de Babitonga, próxima da cidade de Joinville e da Ilha de São Francisco do Sul, em Santa Catarina.

A toninha se alimenta de diferentes espécies de peixes, lulas e camarões. A morte devido à captura acidental em redes de pesca é a principal ameaça à conservação dessa espécie. As demais ameaças, também comum aos golfinhos em geral, são a crescente degradação ambiental da zona costeira, a construção de portos e indústrias no litoral, o intenso tráfego marítimo/colisão com embarcações, a prospecção e a exploração sísmica nas áreas de migração e de reprodução, bem como a poluição e a degradação dos ambientes marinhos e costeiros.

O boto-cor-de rosa ou boto-vermelho (Inia geoffrensis) é o maior dos golfinhos de rio e tem visível dimorfismo sexual. Os machos adultos atingem 2,55m de comprimento e 200 kg de peso. Fêmeas chegam a medir 2,25m e pesar 155 kg. Este boto só ocorre nos rios da Bacia Amazônica, mas em grandes quantidades e por quase toda a região.

Assim como os demais golfinhos de rio, os botos-cor-de-rosa são impactados pela competição de recursos hídricos e de peixe com os humanos. As mais recentes ameaças a essa espécie são a pesca da piracatinga, que usa o boto como isca, e a construção de hidrelétricas na região.

Histórias evolutivas

De acordo com o “Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Mamíferos Aquáticos – Pequenos Cetáceos”, publicado em 2011 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), os pequenos cetáceos formam um grupo com várias origens e histórias evolutivas, totalizando 69 espécies, distribuídas em nove famílias.

Eles estão presentes em todas as bacias oceânicas e mares do mundo, bem como em bacias hidrológicas da América do Sul e da Ásia. Incluem desde a orca (Orcinus orca), cujo macho atinge nove metros de comprimento e tem ocorrência cosmopolita, ou seja, em todo o globo terrestre, até o tucuxi (Sotalia fluviatilis), que atinge 1,7 metro de comprimento e é restrito à Bacia Amazônica.

Além das ameaças relativas às atividades econômicas e à ação humana, um dos gargalos para a conservação dos pequenos cetáceos é o fato de a maioria das espécies desse grupo de animais ainda carecer de pesquisas e de informações científicas sobre a sua história de vida, sua distribuição e abundância na natureza.

Conforme dados da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), 40 das 69 espécies de pequenos cetáceos existentes são classificadas como deficiente em dados, ou seja, simplesmente não há informação suficiente disponível para determinar se elas estão ou não ameaçadas.

Do ponto de vista dos serviços ambientais, os pequenos cetáceos desempenham papel essencial nos ecossistemas que habitam, estabilizando e garantindo uma dinâmica produtiva saudável. São, ainda, protagonistas do turismo de observação (whale and dolphin watching), atividade que movimenta cerca de US$ 1 bilhão por ano, em 492 comunidades, de 87 países.

Desde 1998, o Brasil lidera, junto com países da América Latina e da África, a proposta de criação do Santuário do Atlântico Sul, uma área na qual se manteriam apenas atividades voltadas para o turismo sustentável e a pesquisa de mamíferos marinhos, protegendo assim as 51 espécies de baleias e golfinhos aqui existentes. Essa iniciativa, porém, foi mais uma vez vetada pelos países pró-caça, durante a Conferência Global 2018, realiza em setembro, em Florianópolis (SC).

Entenda melhor

O boto-vermelho, boto-da-amazônia ou ainda, como é mais conhecido no restante do Brasil, boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) tem sete vértebras cervicais não-fusionadas e, por isso, consegue mover a cabeça em todas as direções. A cor do corpo varia com a idade, limpidez da água, temperatura e localização. Em águas frias, a cor rosada pode desaparecer.

O golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), quando encontrado em águas costeiras de Santa Catarina ao Rio Grande do Sul, é chamado de boto.

Sociáveis, excelentes nadadores e acrobatas, os golfinhos podem atingir velocidade de até 40 km/h em seu nado e saltar até cinco metros acima da água.

Os golfinhos têm um sistema de orientação e localização conhecido como ecolocação. Através dele, sons de alta frequência, inaudíveis ao ouvido humano, são produzidos pela vibração dos dutos de ar e dirigidos para o meio externo através do “melão” (protuberância na parte frontal da cabeça), que atua no direcionamento das ondas sonoras e altera a frequência e o comprimento delas.

Quando os sons atingem um objeto, o eco retorna ao golfinho, que os capta pela mandíbula e pelo ouvido. E, assim, são transmitidos ao cérebro, que os analisa quanto à localização, forma, textura e constituição.

Saiba mais

Um dos principais atrativos do arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco, é o golfinho-rotador (Stenella longirostris longirostris). Ele tem esse nome porque, quando salta fora d’água, consegue girar até sete vezes em torno de seu próprio eixo.

Com tempo de vida que varia de 20 a 30 anos, o golfinho-rotador atinge 2 metros de comprimento, pesa 75kg e apresenta padrão tricolor: cinza-escuro no dorso, cinza-claro nos flancos e branco no ventre. É a terceira espécie de golfinho mais abundante do mundo. Nunca entra em rios e raramente é observada perto da costa continental.

Devido à complexidade de suas estruturas sociais, dos seus sistemas de comunicação e das características morfológicas e fisiológicas de seu cérebro, os golfinhos são animais muito inteligentes. Proporcionalmente, em relação ao peso e ao tamanho do animal, o cérebro do golfinho-rotador é o terceiro maior, com cerca de 1,5kg, sendo que o cérebro humano é o sexto.

Criado em 1990 para conservar o comportamento natural dessa espécie, o Projeto Golfinho Rotador (golfinhorotador.org.br) atua em diferentes áreas: promove ações de pesquisa, de educação ambiental, de mobilização/envolvimento comunitário e de sustentabilidade em Fernando de Noronha, com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

A Baía dos Golfinhos e a Enseada Entre Ilhas, no Parque Nacional Marinho, são os pontos de maior concentração de grupos de indivíduos da espécie em Noronha. Mas estudos revelam que, nos últimos 10 anos, outras áreas também estão sendo ocupadas. A frequência de animais na Baía dos Golfinhos, local preferido para descanso, amamentação e reprodução, vem diminuindo; mas tem aumentado na Enseda Entre Ilhas e na Baía de Santo Antônio.

Outras duas áreas de observação – Mirante do Boldró (entre 2012 e 2016) e Forte de Nossa Senhora dos Remédios (entre 2016 e 2018) – registram maior frequência dos rotadores. A nova configuração na área de ocupação implica medidas de controle de atividades humanas, tais como o tráfego de embarcações e a instalação de equipamentos que produzam ruídos e outras fontes de impacto sobre esses animais.

Quatro perguntas para... José Martins da Silva Júnior

Oceanógrafo do Núcleo de Gestão Integrado de Fernando de Noronha/ICMBio, idealizador e coordenador do Projeto Golfinho Rotador

Envolvimento da comunidade

Um dos destaques do Projeto Golfinho Rotador é o foco em ações de educação ambiental. Que balanço faz dos principais avanços ocorridos nessas quase três décadas de atividade?

Como um dos principais objetivos do projeto é envolver as pessoas na conservação da biodiversidade marinha, nos dedicamos muito a promover ações de sensibilização com este foco específico. Felizmente, a mudança do discurso da comunidade e das autoridades locais – de contra ou neutra para veemente pró-conservação –, é um resultado palpável do projeto. Em relação à educação ambiental, os prêmios nacionais e internacionais relacionados às nossas atividades também indicam que estamos no caminho certo.

Poderia citar alguns desses prêmios?

Vale destacar a conquista do 1º lugar no “Prêmio Procel de Eficiência Energética” (2006), concedido ao projeto arquitetônico da sede do Projeto Golfinho Rotador, na categoria “Edificações”. Além, ainda, do prêmio Okayama Award 2016, de educação para o desenvolvimento sustentável, no qual fomos um dos 10 finalistas de todo o mundo. Esse prêmio é promovido pela cidade de Okayama, no Japão, uma das parceiras da Unesco no Programa de Ação Global para efetivação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Quanto o turismo de observação movimenta, por ano, em Noronha?

Em 2018, o arquipélago recebeu 103.548 turistas, segundo dados oficiais da Autarquia Territorial do Distrito Estadual de Fernando de Noronha (ATDEFN). Desse total de turistas, cerca de 80% fizeram passeios de barco para observar golfinhos. Como a média de custo por passeio é de R$ 100 (por pessoa), em 2018, o turismo de observação movimentou, no mínimo, R$ 8.283.840.

O senhor é um dos idealizadores do Projeto Golfinho Rotador. O que mais lhe motiva na convivência com os golfinhos?

O convívio com a natureza de Fernando de Noronha e com os golfinhos, bem como a minha formação acadêmica e a perseverança no trabalho, certamente são as minhas maiores inspirações. Foi graças a isso que criamos um dos maiores programas de conservação de golfinhos do mundo.


Postar comentário