“O extrativismo sustentável é possível”

Páginas Verdes
Edição 116 - Publicado em: 09/04/2019

Entre 2016 e 2017, o gestor ambiental Hiuri Metaxas, 26 anos, visitou várias comunidades da zona rural de Januária, no Norte de Minas, nos limites da Área de Proteção Ambiental (APA) Cavernas do Peruaçu. Em uma delas, a de Areião, fica a sede da Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu (Cooperuaçu), onde ele realizou uma série de pesquisas para valorar serviços ambientais na APA.

Na cooperativa trabalham mais de 60 pessoas, a maioria mulheres. Além da extração de frutos como pequi, cagaita e buriti, elas produzem geleias, doces, polpas e vários outros produtos que são comercializados em todo o estado. “Os cooperados são conscientes de que a preservação ambiental é essencial para a sobrevivência e o trabalho. Respeitam e conhecem os serviços ambientais que a natureza oferece a eles”, afirma o pesquisador.

O trabalho, que foi tema da dissertação de mestrado de Hiuri, é um dos poucos já realizados na área, uma Unidade de Conservação (UC) de Uso Sustentável gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A área do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu tem 143.355,59 hectares. Integra o Mosaico Grande Sertão Veredas – Peruaçu e também é conhecida por abrigar cavernas e sítios arqueológicos e paleontológicos.

Nesta entrevista à Ecológico, Hiuri ressalta a importância da preservação ambiental para a manutenção das comunidades rurais e tradicionais e como as áreas prioritárias de conservação têm sofrido com ações antrópicas, como queimadas e desmatamento, que impactam os serviços oferecidos pela natureza. Confira:

Por que você escolheu o tema valoração ambiental como objeto de pesquisa?

Antes de iniciar este trabalho no Norte de Minas, havia começado um estudo de valoração em uma área da capital mineira. Neste espaço, infelizmente, havia um conflito político e ambiental muito grande. Fui impedido pelos próprios moradores, por questão de segurança, de entrar no local. Então, fui buscar outro objeto de estudo. Conheci alguns produtores rurais da região da APA Cavernas do Peruaçu que participavam de uma feira de agricultura familiar em BH, vendendo frutos, e me informei a respeito.

O tema ainda é muito pouco estudado?

Sim. Do ponto de vista científico e preservacionista, é muito interessante. Se você fizer uma busca na plataforma do SisBio [sistema que permite a pesquisadores solicitarem autorizações para coleta de material biológico e para a realização de pesquisa em unidades de conservação federais e cavernas], verá que há um número pequeno de pesquisas realizadas. Na APA Cavernas do Peruaçu, uma área prioritária à conservação, por exemplo, não havia nenhum estudo sobre valoração ambiental. Outra questão é que a APA não possui Plano de Manejo. Desse modo, estudos que são desenvolvidos lá podem ser utilizados como base para se construir o material.

Qual serviço ambiental foi valorado?

O da produção de frutos e comercialização dos produtos gerados por meio deles, como geleias, polpas, sorvete, doce, pasta, sucos, licores... Na época da pesquisa, eram 32 produtos. Hoje já são mais de 40. Eles não têm conservantes ou corantes. São de origem natural e extrativista, de frutas nativas do Cerrado. Por isso, têm, inclusive, durabilidade menor.

E o valor real do serviço ambiental pesquisado?

O Valor Econômico Total (VET) foi de R$ 189,5 milhões. A estimativa poderia ser maior, uma vez que esse número leva em consideração apenas 12 espécies vegetais como provedoras dos serviços. Pequi, araticum, buriti, coquinho azedo e cagaita estão entre elas. No âmbito da pesquisa, o coquinho azedo, inclusive, foi responsável por quase 70% do faturamento da cooperativa. No período analisado, foram coletadas mais de 10 toneladas de frutos.

Quantas pessoas fazem parte da Cooperuaçu?

São mais de 60 sócios-cooperados (80%, mulheres), de 14 comunidades localizadas nos limites da APA. Essa cooperativa é recente, foi fundada em 2013 (antes disso, eles trabalhavam de maneira informal) e regulamentada em 2016. A cooperativa é carente de recursos administrativos e não tinha uma forma estruturada de arquivo e mensuração de números. A planilha de peso que eles utilizam hoje, por exemplo, foi desenvolvida durante a pesquisa.

Os produtos são comercializados apenas pela cooperativa?

Há três meios de comercialização. A primeira é em nível regional, em que compradores de cidades próximas vão à sede da cooperativa, que fica na Comunidade do Areião, na zona rural de Januária. Em âmbito estadual, a venda dos produtos acontece através das feiras que eles participam. Fora de Minas, ela é realizada com a ajuda de parceiros, como a ONG WWF Brasil, e o Sebrae. Em Pinheiros (SP), eles vão pessoalmente levar os frutos para serem comercializados. A cooperativa já exportou até creme de pequi para o Japão.

Qual é a renda média dos cooperados?

Antes de ter a atividade extrativista, a renda deles vinha da agricultura familiar. Já a renda extrativista média é de até um salário. O valor para cada cooperado depende da quantidade de frutos que ele coleta e entrega à cooperativa. É importante ressaltar que, após a instalação da Cooperuaçu, a qualidade de vida dos cooperados melhorou. A instituição faz um trabalho sério. A prova disso é que vem atraindo parcerias e dá mais visibilidade ao trabalho que é desenvolvido na comunidade. Por meio dessas parcerias, como as do WWF Brasil e do Sebrae, eles participam de debates e fazem cursos e capacitações.

Mais de 80% dos cooperados são mulheres. Por que a participação de homens é pequena?

Acredito que seja pelo fato de elas serem maioria. Mas isso não é um limitador para que novas pessoas entrem na cooperativa. Todos trabalham para o fortalecimento da Cooperuaçu, mas o provimento é individualizado. Como disse, quem colhe mais, ganha mais. A preocupação maior, entretanto, é com o futuro da instituição, pois os jovens das comunidades têm pouco interesse em trabalhar com extrativismo sustentável.

Você identificou nos cooperados a preocupação com as questões ambientais?

Sim, e isso é um dos pontos-chave da pesquisa. Há bibliografias que dizem que o extrativismo pode não ser bom porque atrapalha a propagação das espécies vegetais. Mas se a extração for feita com responsabilidade, pensando na manutenção biológica e ecológica, dá certo.

Poderia dar um exemplo?

Você tem uma árvore no ecossistema local com 100 frutos. Existem extrativistas que tirariam os 100 frutos. Não é o caso da cooperativa. Eles tirariam 30, porque sabem que os outros 70 são para alimentar a fauna. Também há os frutos que precisam amadurecer e cair no solo para reprodução da espécie. Os cooperados são conscientes de que a preservação ambiental é essencial para a sobrevivência e o trabalho. Respeitam e conhecem os serviços ambientais que a natureza oferece a eles. A cooperativa é um exemplo de que o extrativismo sustentável é possível.

A região sofre muito com ações antrópicas?

Entre 2016 e 2017, houve uma queimada em uma das veredas. Foram quase 60 hectares destruídos. O prejuízo para a cooperativa foi de quatro toneladas de buritis, que deixaram de ser coletadas. O trabalho dos cooperados é ambientalmente colaborativo. Para manter a identidade cultural sertaneja, eles buscam valorizar alimentos tradicionais e preservar os ecossistemas locais.

No caso do trabalho com comunidades, o que é preciso destacar?

Para esse tipo de pesquisa, você tem de se deslocar várias vezes para a área de estudo. O acesso, às vezes, é muito difícil. É preciso também fazer um processo de sensibilização e interlocução antes de entrar na comunidade. Por mais gentis que as pessoas sejam, às vezes elas são resistentes à entrada de novas pessoas. É essencial conversar antes com as lideranças e cadastrar a pesquisa no ICMBio. Antes de me dedicar à dissertação, eu já havia começado a contatar a Cooperuaçu. Já tinha experiência em trabalhar com comunidades rurais, mas da forma como busquei trabalhar, foi inédito. Os cooperados foram muito solícitos, hospitaleiros.

Qual o desdobramento que você vê da pesquisa?

De orientação. Hoje, a Valoração Ambiental já é disciplina específica em cursos de mestrado. A pesquisa serve de base para novas turmas de pesquisadores que queiram trabalhar com o tema. Ao divulgar os resultados, podem surgir pessoas interessadas em conhecer a cooperativa e também auxiliar os cooperados, porque este também era um dos objetivos da pesquisa. Outro é dar à área de proteção Cavernas do Peruaçu um estudo que pudesse embasar políticas públicas socioambientais.

O que a pesquisa mudou no seu olhar como ser humano e pesquisador?

Ela me mostrou como a natureza é riquíssima e essencial para todos nós. No caso do Norte de Minas, há um certo preconceito quando se fala nele. Você chega lá, acha que é uma região seca e pobre. Mas, se andar um pouquinho, consegue entrar nas várzeas, nas veredas. A paisagem é impactante. Sempre trabalhei com gestão ambiental e o que posso dizer é que a proximidade com a natureza muda a gente por dentro. E, principalmente, nos faz enxergar que os recursos naturais são finitos e devem ser preservados.


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