Surra de maria-preta e alecrim no defunto

Marcos Guião *
Natureza Medicinal
Edição 116 - Publicado em: 09/04/2019

Nessas andanças pelo sertão já ouvi um bocado de histórias, algumas fantasiosas, outras refletindo as durezas da vida. Dia desses ouvi uma deverasmente curiosa acontecida dos antigamentes na região central dos Gerais. Quem me contou foi Zé Malaquias, cabra dotado de grandes olhos esverdeados enfeitando o rosto redondo vincado de rugas. Um chapéu de palha desgastado cobria a cabeça se apoiando nas orelhas de abano, completando sua figura altiva e tranquila. Estávamos numa turma grande, onde todos conversavam animadamente sobre as plantas de remédio, quando de repente o assunto esbarrou na morte.

Cada qual deu seu palpite, até que o assunto foi se esfriando. Foi aí que Malaquias puxou, dos seus mais de 70 anos, a memória do que ocorria naqueles tempos em que ele ainda era um garoto morador da comunidade do Engenho. Quando morria alguém por lá era um “Deus nos acuda”, pois no distrito num tinha cemitério e o enterro se dava na sede do município distante 18 km. Num tinha carro e o falecido era literalmente carregado nos braços até lá.

Em geral, o defunto era devidamente preparado, chorado e velado pelos amigos e familiares ainda na comunidade, para depois então ter seu caixão fechado e colocado por riba de uma espécie de padiola, que oito dos homens mais fortes da comunidade carregavam até chegar à cidade. Num importava se era chuva ou sol, o ritual era sempre esse.

- “Já fiz isso demais no tempo que as forças ainda tavam nos meus braços. Nóis vinha naquela faina num batido só, até que os braços começavam a fraquejar. No meio do caminho tinha um pé de genipapo, que inté hoje inda tá lá, onde a gente arriava o morto, sentava na sombra da árvore, tomava um café, comia-se uma broa e ganhava fôlego. Enquanto isso os mais velhos que acompanhavam o cortejo passavam a mão numas varas de maria-preta ou de alecrim encontradas por ali mesmo e davam de ralhar com morto. Aquilo eles batiam por riba do caixão, gritando: ‘Ocê tem que se entregar, isso é ordem de Deus, ele tá te esperando, chegou seu dia’... Moço ainda, eu ficava oiando aquilo assombrado, sem dizer nada em sinal de respeito. Pois ocê acredita que daí em diante ele dava de ficar maneirinho novamente? Antão nóis tornava a levantar a padiola, jogava nos ombros e cabava de completar nossa tarefa de ‘entregar o morto no cemitério’.”

Os recursos hoje são muitos e os costumes mudaram, mas histórias como essa ainda resistem e me causam espanto. Inté a próxima lua!

* Jornalista e consultor de plantas medicinais. Saiba mais em ervanariamarcosguiao.com.br


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