Lição não aprendida

Degradação provocada pela lama que desceu da barragem de Fundão ainda é visível nas ruínas dos dois primeiros distritos e na cor da água do Rio Gualaxo do Norte
Maria Dalce Ricas - redacao@revistaecologico.com.br
Estado de Alerta
Edição 104 - Publicado em: 19/02/2018

Em novembro de 2017, participei de um grupo de visitantes à região de Mariana, no âmbito do programa VimVer, da Fundação Renova. A degradação provocada pela lama que desceu da barragem de Fundão ainda é visível nas ruínas dos dois primeiros distritos e na cor da água do Rio Gualaxo do Norte. Mas, grande trecho de suas margens foi revitalizado. A vegetação estava luxuriante.

Tomamos conhecimento de fatos como solicitação de indenização por parte de areeiros (muitos atuavam ilegalmente), que informam quantidades extraídas antes do desastre muito acima da realidade. De casas reconstruídas na área urbana, quase dentro do rio, por exigência dos proprietários, sem que os órgãos ambientais ou a prefeitura se importassem. A Renova informou que não tem autoridade para recusar. E ninguém imaginava que o Rio Doce, já em processo de agonia antes da lama, tivesse tanto pescado.

Vi o que já sabia: na área rural, o quadro predominante é erosão do solo pela prática de pecuária extensiva e insustentável (superpastoreio, fogo, pisoteio de nascentes e margens de cursos d’água pelo gado). A maior parte dos proprietários sobrevive com aposentadorias, pequenos plantios para uso próprio e venda de leite para laticínios que coletam o produto.

A Renova informou que estão cadastradas 226 propriedades (39.000 ha), que serão objeto de readequação ambiental e econômica. A aceitação dos proprietários decorre de trabalho de convencimento dos técnicos, mostrando que a produtividade econômica aumentará devido à recuperação dos pastos. É um programa que deveria existir em todo o Estado, para recuperar e salvar nossas bacias hidrográficas.

A readequação ambiental, conforme nos informaram, contempla planejamento de paisagem, recuperação de APPs, reservas legais, proteção da fauna silvestre, conectividade florestal, diversificação econômica (incluindo busca de mercado). É um grande desafio, considerando a cultura arcaica sobre meio ambiente que ainda predomina nas áreas rurais. E, se vencido, será um grande ganho ambiental pela recuperação de áreas de Mata Atlântica.

Em Barra Longa, o Rio Gualaxo do Norte, correndo lento e leitoso de tanto esgoto, encontra-se com o do Carmo e continua seguindo com este nome até encontrar o Piranga e formar o Doce. Segundo a Renova, no trecho entre Bento Rodrigues e Barragem de Candonga foram reconformados 106 km de margens.

No que se refere à demora da reconstrução de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, a Renova informou que a modelagem do processo estendeu-se por quase dois anos dentro do Comitê Interfederativo que define o que tem de ser feito. E mais alguns meses para que os atingidos escolhessem o local. Mapeamento, estudos técnicos, compra da área, levantamento de expectativas e aprovação do projeto urbanístico (no caso de Bento), foram as atividades realizadas ao longo dos dois anos.

Com relação à biodiversidade atingida, fomos informados que somente agora foi terminada a modelagem dos estudos que deverão ser feitos sobre o impacto à fauna e que apontarão as ações.

Antes da tragédia ambiental causada pela Samarco, outra, silenciosa, mas constante e sorrateira, matava o Doce e seus afluentes dia a dia, ano após ano. A lama completou e escancarou sua agonia.

Que ninguém se engane: a área atingida poderá ser recuperada, mas é apenas um pedaço da bacia do Rio Doce. O restante, outras bacias que estão em processo final de agonia como a do Velho Chico e outras como Paracatu, Pandeiros, Pardo, Urucuia, onde a tragédia silenciosa cresce a cada dia, continuarão abandonadas à sua triste sorte. A lição não foi aprendida pelo poder público, iniciativa privada e sociedade.


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