O fim da natureza pátria?



O fim da natureza pátria?
Estado de Alerta
Edição 113 - Publicado em: 23/11/2018

O pior dos nossos temores felizmente não se concretizou. Jair Bolsonaro voltou atrás quanto à fusão dos ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura. Licenciamento era a mais forte alegação, o que não procede, pois além do setor agropecuário ter tido até o momento êxito quase total em escapulir da legislação ambiental, a maior demanda é indústria e infraestrutura. E a ideia era tão ruim, que até mesmo setores do agronegócio com um pouco mais de juízo, temerosos de reações negativas do mercado externo, foram contra.

Mas há outros temores, como enfraquecer ainda mais o Ibama e o ICMbio, como vem fazendo o atual governo. “Tá na cara” que respeito e preocupação com o meio ambiente, especificamente com as demais formas de vida, não fazem parte do cardápio político. Diante da declaração do novo presidente eleito de que “índio não terá mais um centímetro de terra”, a única dedução é que voltaremos (ou continuaremos?) fiéis aos princípios da supremacia de nossa civilização e de que também a “Amazônia é um espaço vazio”.

Nações indígenas que lá vivem há milhares de anos antes dos “conquistadores” chegarem, animais, árvores, rios, não existem ou poderão deixar de existir no novo governo. A floresta lhes parece ser apenas estoques de madeira, minério, água e de “terras improdutivas”. Nem mesmo o risco de acabar com os “rios voadores”, que trazem nuvens carregadas de chuvas produzidas pela Amazônia até as regiões Sudeste e Centro-Oeste, e mantêm a agropecuária, parece importar.

Cotado anteriormente para assumir o Ministério da Agricultura, ainda sob o espectro da fusão, o atual presidente da União Democrática Ruralista, Luiz Antônio Nabhan Garcia, principal consultor de Bolsonaro para o agronegócio, defendendo-a, disse que ela acabaria com o que chama de “misturança ideológica” na questão ambiental. Em outras palavras, que há espaço legal para o Brasil continuar desmatando a maior biodiversidade restante do planeta.

A “indústria de multas” era outra alegação. Não duvido nem um pouquinho de injustiças e abusos. Conheço casos bem “cabeludos”, mas tenho a mesma certeza (até não gostaria de tê-la) de que representam percentual pequeno no universo de horrores em que se transformou o avanço da fronteira agropecuária sobre Amazônia, Cerrado, Caatinga e até sobre a perrengue Mata Atlântica.

ONGs internacionais que insuflam populações indígenas contra proprietários rurais que, vejam bem, ocupam “terras improdutivas” (leia-se “terras cobertas pela floresta”) é alegação ferozmente brandida. Nem uma palavra contra grileiros e grilagens, assassinatos, violência contra fiscais do Ibama, invasões, morticínios e extinção dos animais e da floresta. E, menos ainda, sobre o gigantesco estoque de terras desmatadas no país, abandonadas ou subutilizadas. É muito atraso!

Erros, excessos e injustiças, independentemente de quem os comete, devem ser diagnosticados de forma séria, honesta e independente, mostrados à sociedade e corrigidos; e não usados de forma tão primária para enfraquecer ainda mais os órgãos ambientais.

Tomo emprestado, de Castro Alves, o grande poeta da natureza, e em nome das florestas e de seus habitantes, um pedacinho da arrepiante poesia O Navio Negreiro: “Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me Vós, Senhor Deus, se eu deliro ou se é verdade tanto horror perante os céus”!