Tartarugas

A captura incidental é a principal ameaça às populações de tartarugas marinhas,seguida do avanço do plástico sobre os oceanos e da incidência de luz artificial nas praias, fruto da expansão urbana sobre o litoral
Ecológico nas Escolas
Edição 120 - Publicado em: 19/11/2019

Elas têm um dia internacional dedicado a elas: 16 de junho. O objetivo da data é ampliar a divulgação de informações sobre as tartarugas, espécies que habitam o planeta há milhões de anos e, assim, conscientizar as pessoas sobre a importância desses animais para o equilíbrio ecológico.

As tartarugas marinhas são consideradas um componente primitivo e singular da diversidade biológica. Afinal, pertencem à mais antiga linhagem de répteis vivos, tendo aparecido pela primeira vez no período Jurássico.

O registro mais antigo de tartaruga marinha no mundo data de aproximadamente 110 milhões de anos. Trata-se da espécie Santanachelys gaffneyi (Protostegidae), encontrada em Santana do Cariri, na Chapada do Araripe (CE).

A análise deste espécime permitiu constatar que as tartarugas marinhas atuais não sofreram muitas modificações desde os registros fósseis mais antigos existentes. Já o maior fóssil desse animal até hoje encontrado pertence à espécie Archelon ischyros (arquelônio). O indivíduo encontrado tinha 4,6 metros de comprimento de carapaça e pesava cerca de duas toneladas, tendo vivido no período Cretáceo, há 70 milhões de anos.

Foto: Troy Mayne - WWF
Foto: Troy Mayne - WWF

No Cretáceo, havia quatro famílias de tartarugas marinhas (Toxochelyidae, Protostegidae, Cheloniidae e Dermochelyidae), sendo que apenas as duas últimas permaneceram até aos dias de hoje. A espécie Dermochelys coriacea (tartaruga-de-couro ou gigante) pertence à família Dermochelyidae, enquanto a Caretta (tartaruga-cabeçuda); Chelonia mydas (tartaruga-verde); Eretmochelys imbricata (tartaruga-de-pente); Lepidochelys olivácea (tartaruga-oliva); Lepidochelys kempii (tartaruga-de-kemp) e Natator depressus (tartaruga-marinha-australiana) pertencem à família Cheloniidae. Dessas, apenas as duas últimas espécies não ocorrem no Brasil.

Evolução e sobrevivência

Presentes em todas as bacias oceânicas do globo, as tartarugas marinhas são encontradas do Ártico até a Tasmânia. No entanto, a maior parte das ocorrências reprodutivas está concentrada em regiões tropicais e subtropicais. Altamente migratórias, essas espécies têm um complexo ciclo de vida e usam uma extensa área geográfica e múltiplos hábitats. Seu ciclo de vida é longo: levam de 20 a 30 anos para se reproduzir.

Durante sua evolução, várias modificações permitiram a sobrevivência e adaptação das tartarugas a novos ambientes. O número de vértebras, por exemplo, foi reduzido, fusionaram-se as costelas e formou-se uma carapaça de revestimento. Enquanto algumas permaneceram vivendo em terra, outras buscaram a água doce ou migraram para o mar.

No caso das tartarugas marinhas, a carapaça tornou-se mais achatada, ficando mais leve e hidrodinâmica. As patas, por sua vez, transformaram-se em nadadeiras, permitindo moverem-se com mais eficiência debaixo d’água. Outra importante adaptação foi o surgimento das chamadas glândulas de sal, localizadas perto dos olhos. As ‘lágrimas’ observadas nas fêmeas em fase de reprodução são, na verdade, secreção de sal expelida através dessas glândulas especiais.

Além de pulmões poderosos – daí sua grande capacidade de permanência debaixo d’água –, elas têm visão, olfato e audição bastante desenvolvidos, além de excelente senso de orientação. Várias teorias foram criadas para explicar a capacidade que as tartarugas marinhas têm de migrar entre as áreas usadas para alimentação, repouso e reprodução.

De acordo com especialistas, evidências indicam que as fêmeas adultas sempre regressam à praia natal para reprodução. Alguns autores sugerem, ainda, que os filhotes são capazes de memorizar a composição química da água e o campo magnético terrestre, pelo fato de terem cristais de magnetita – a pedra-ímã mais magnética da Terra – em seu cérebro.

Como se deslocam desde os trópicos até as regiões subpolares, transferem energia entre ambientes marinhos e terrestres. Por isso, as tartarugas são chamadas de ‘engenheiras do ecossistema’, devido a sua influência e ação sobre os recifes de coral, bancos de grama marinha e substratos arenosos do fundo oceânico.

Principal ameaça

Em escala global, a captura incidental é considerada atualmente a principal ameaça às populações de tartarugas marinhas. Essas espécies são incidentalmente capturadas nos mais diversos tipos de pescaria, como arrasto, espinhel e emalhe. Outros fatores de ameaça são a iluminação artificial e o trânsito de veículos próximo à orla e áreas de desova.

O crescente avanço do plástico sobre os oceanos também é vilão. Segundo dados do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), a cada ano, quase 200 mil toneladas de materiais plásticos são lançadas ao mar, somente na costa brasileira, que se estende por mais de 7 mil quilômetros.

O descarte incorreto do lixo, principalmente nas praias, interfere diretamente no desenvolvimento das espécies marinhas. Estudo feito pela Universidade de Queensland, na Austrália, indica que a contaminação dos oceanos, principalmente por plásticos, é responsável pela morte de 100 mil animais todos os anos.

Nesse cenário cada dia mais preocupante, as tartarugas, ao lado das aves marinhas, estão entre as espécies mais prejudicadas por confundirem sacolas com alimentos de sua cadeia natural, tais como as águas vivas e os pequenos organismos aquáticos.

A ingestão de plástico e de outros resíduos está relacionada aos hábitos alimentares das tartarugas marinhas. As espécies que não perseguem suas presas, como a tartaruga-verde, estão ainda mais sujeitas ao problema. A tartaruga-de-couro, que se alimenta principalmente de águas-vivas, também é alvo fácil.

Restos de redes e linhas de pesca abandonados no mar também são perigosos, pois permanecem no ambiente, matando indiscriminadamente e desnecessariamente não só as tartarugas como outros animais que se enroscam e morrem por asfixia ou inanição.

O homem também interfere no processo de extinção de espécies, por meio de ações como: destruição dos hábitats, exploração dos recursos naturais e introdução de espécies exóticas (vindas de outros locais).

Fontes/pesquisa bibliográfica:

Plano de Ação Nacional para Conservação das Tartarugas Marinhas (ICMBio/MMA), Projeto Tamar e USP.

Fique por dentro

Conhecidas como sentinelas dos mares, as tartarugas marinhas funcionam como termômetro da qualidade ambiental. Por serem animais de “sangue frio”, ou seja, cuja temperatura corporal varia conforme a temperatura do ambiente, têm a fisiologia profundamente influenciada pelo meio externo. Essa condição, junto de outras particularidades como criar vários ninhos numa mesma temporada reprodutiva, fazem com que sejam capazes de detectar mínimas alterações no ambiente como, por exemplo, mudanças climáticas.

As tartarugas marinhas interagem com várias modalidades de pesca artesanal e industrial. Presas nos diversos tipos de redes e anzóis, elas não conseguem subir à superfície para respirar e acabam desmaiando ou mesmo morrendo afogadas.

Foto: Reprodução / Facebook
Foto: Reprodução / Facebook

Estima-se que, na década de 1990, cerca de 150 mil tartarugas tenham sido mortas por ano, em redes de arrasto de camarões, levando ao status de ameaça, em razão de essas capturas abrangerem épocas variáveis do seu ciclo de vida. Este número vem aumentando a cada ano.

O ciclo de vida das espécies marinhas tem basicamente duas fases: a primeira, oceânica, durante o período juvenil; e a segunda, nerítica (região que se estende do litoral aos 200 metros de profundidade), durante a fase adulta. Esse amplo espectro de hábitats torna essas espécies suscetíveis a uma maior diversidade de impactos antrópicos, como a interação com diversas pescarias.

Prestes a completar 40 anos, o Projeto Tamar é referência na conservação de tartarugas marinhas. Assegura 100% de cobertura nas principais praias de desova (1.100 km), com presença em 26 localidades, de nove estados brasileiros. Desde 1980, contabiliza quase 40 milhões de filhotes devolvidos ao mar.

O Dia Mundial da Tartaruga Marinha é comemorado na data em que nasceu o biólogo e pesquisador pioneiro desses animais: o norte-americano Archie Carr (1909-1987).

Entre as espécies de água doce, vale citar a tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa), encontrada na Colômbia, Venezuela, Guianas, Brasil, Peru, Equador e Bolívia. No Brasil, ela ocorre em todos estados da Região Norte e também em Goiás e Mato Grosso, no Centro-Oeste.

Símbolo de resiliência, as tartarugas inspiram diversas culturas mundo afora. Para os hindus, simbolizam a Mãe-Terra. No Havaí, são sinônimo de sabedoria e de boa sorte, enquanto que, para os indígenas da América do Norte, representam a longevidade.

Entenda as diferenças

Tartaruga
Assim são genericamente chamados todos os quelônios não classificados como cágados ou jabutis. As tartarugas podem ser tanto marinhas como de água doce. Têm o casco mais alto que o dos cágados. Outra diferença importante é que as tartarugas não dobram o pescoço para o lado ao recolhê-lo para dentro do casco, como fazem os cágados.

Jabuti
Água não é com ele. O jabuti é o único entre esses três tipos de quelônios que vive exclusivamente na terra. Ele também pode ser facilmente identificado pelo casco alto e pelas patas traseiras em formato cilíndrico, fazendo lembrar as de um elefante.

Cágado
Distingue-se do jabuti por ser um quelônio de água doce e não terrestre. Já as diferenças em relação às tartarugas são sutis. Os cágados têm casco mais achatado e o pescoço mais longo

Quatro perguntas para... Valéria Rocha, bióloga/Coordenação de Educação Ambiental e Inclusão Social da Fundação Pró-Tamar

Pesquisas e novas leis

Vocês desenvolvem alguma ação específica para combate à poluição por plásticos?

Sim. Além de participarmos das campanhas de sensibilização como a Clean Up todos os anos, junto a parceiros locais, também fazemos pesquisas em parceria com universidades. As tartarugas marinhas que aparecem encalhadas vivas são analisadas para entendermos as interações ambientais que ocorreram. Essas interações podem se dar com a pesca (na maioria das vezes) ou por poluição (resíduos e/ou óleo). Nas que chegam mortas, são feitas necropsias nos espaços de veterinária, dentro das bases de pesquisa do projeto/Fundação Pró-Tamar, que têm o patrocínio da Petrobras.

Quais são as principais iniciativas para reduzir os impactos da pesca incidental sobre as espécies brasileiras?

Temos um programa específico no qual técnicos da Fundação Pró-Tamar participam de diversos fóruns relacionados às pescarias que ocorrem no nosso mar territorial. Além disso, desenvolvemos novos recursos e apetrechos de pesca capazes de reduzir os efeitos dessa atividade sobre as populações, bem como os índices de capturas. Como consequência, após 10 anos de dados coletados, comprovando as capturas incidentais, foi criada a Portaria Interministerial 74/2017.

Que medidas essa portaria prevê?

Ela estabelece medidas mitigadoras, visando reduzir a captura incidental e também a mortalidade de tartarugas marinhas por embarcações pesqueiras que operam na modalidade espinhel horizontal de superfície, usado na captura de atuns e espadartes, uma das mais usadas em águas brasileiras e com altas taxas de capturas incidentais. Também há campanhas educativas direcionadas às pescarias artesanais, como a “Nem Tudo que Cai na rede é Peixe”. Seu objetivo é oferecer orientação aos pescadores e gerar parcerias nas ocorrências.

Como a iluminação artificial afeta as tartarugas e o que tem sido feito para minimizar seus impactos?

A incidência de luz artificial nas praias, fruto da expansão urbana sobre o litoral, prejudica fêmeas e filhotes. As fêmeas deixam de desovar, evitando o litoral se a praia está iluminada inadequadamente. Os filhotes, por sua vez, ficam desorientados: ao invés de seguir para o mar, guiados pela luz do horizonte, caminham para o continente, atraídos pela iluminação artificial – e fatalmente são atropelados, devorados por predadores como cães e raposas, ou morrem de desidratação. O Tamar conseguiu aprovar leis impedindo a instalação de novos pontos de luz em áreas de desova e faz campanhas permanentes para substituição, nessas áreas, das luminárias convencionais por outras, especialmente desenhadas sob orientação do projeto, evitando que a luz incida diretamente sobre a praia.


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