A casa ideal e a velhice saudável

Afeto, saúde e sustentabilidade: família mineira idealiza instituição própria para cuidar dos parentes idosos
Luciano Lopes - redacao@revistaecologico.com.br
Ecologia Humana
Publicado em: 07/03/2019

Simplicidade. Paciência. Desapego. Aprendemos mais sobre essas três grandes lições de São Francisco de Assis ao reencontrar o jornalista e produtor cultural Nestor Sant’Anna para uma conversa do coração. Há dois anos, ele e a esposa Lígia deixaram a Matinha, recanto verde onde viviam em Macacos, distrito de Nova Lima, para voltar a viver na capital mineira.

“O trânsito está a cada dia mais intenso. O que era livre há 10 anos hoje exige programação e condicionamento, antecipando ou retardando acessos para fugir de filas intermináveis, neste cenário de pouca via para muito carro e moto, de gente de menos para máquina de mais. E, se não bastasse, cresce a intolerância, o desrespeito, a pouca consciência do ser cidadão, que resulta em impaciência, violência, assalto, roubo e agressões engenhosamente requintadas”, desabafa Nestor, que atualmente mora em um apartamento no bairro São Bento.

Antes de se mudar da Matinha, Nestor queimou registros de 30 anos de profissão. Fotos, textos e projetos viraram cinzas, que hoje estão integradas à natureza, adubando os canteiros dos que virão. “Na vida, é preciso se desligar de algumas coisas para se iniciar novos ciclos, encontrar mais equilíbrio, harmonia e paz. Mais tempo para pensar, sentir, observar, degustar, intuir, compreender, perdoar, repartir, compartilhar, saber.”

Ambos com mais de 70 anos, Nestor e Lígia perceberam que era hora de mudar para construir um novo futuro. E não há companhia melhor do que a família para se fazer isso.

NASCE UMA IDEIA

Nestor, que tem dois filhos – Gabriela e Bernardo–, nasceu em Teófilo Otoni, Vale do Mucuri. Mudou-se para BH ainda jovem e fez história no universo da Comunicação governamental e corporativa em Minas Gerais (foi chefe de cerimonial dos governos Aureliano Chaves e Francelino Pereira, presidente do Palácio das Artes e da Rádio Inconfidência, e gerente de Comunicação de empresas como Fiat, MBR e Vallée).

Nestor: revolução familiar no cuidado com os idosos. Foto: Ecológico
Nestor: revolução familiar no cuidado com os idosos. Foto: Ecológico

Nestor vem de uma família grande. “São 15 irmãos. Contando parentes diretos e agregados, o número passa de 200”, diz ele. Dos irmãos, apenas sete estão vivos. Sobrinhos, são dezenas. E, na história que vamos contar a seguir, todos eles se tornaram protagonistas de uma ideia que pode revolucionar o cuidado e a qualidade de vida de nossos idosos.

Todo sábado, a família Coelho Sant’Anna – principalmente os sobrinhos, com idades entre 40 e 60 anos - se encontra no Bar do Lili, no bairro Santo Antônio, coração da capital mineira. Ali, entre abraços, risadas e lembranças, “sai bobagem, mas também muita coisa boa”. Durante uma dessas reuniões, ao debaterem as dificuldades enfrentadas pelos idosos hoje (os tratamentos médicos são caros, a violência só cresce e nem sempre é possível encontrar cuidadores atenciosos e dedicados), vieram as perguntas: “E o nosso amanhã, como será? Quem irá cuidar de nós?”.

Pensando não apenas na idade avançada dos pais, a maioria na casa dos 80, mas no futuro de si próprios, os sobrinhos idealizaram a criação de um espaço para cuidar e abrigar os idosos da família: a Associação Casa de Santa Anna, carinhosamente chamada de “ACASA”. Trata-se de um local que, além de atender a todas as exigências legais e estruturais para entidades que cuidam de cidadãos na terceira idade, respeitará outra condição humana quando o assunto é velhice: a pessoalidade.

“Os asilos se tornaram locais de longa permanência. Queremos uma unidade residencial que tenha tudo que eles oferecem, sobretudo afeto. Mas, também, música, arte, áreas verdes e opções de lazer apropriadas, sem achar que velho tem 15 anos e deve fazer o que monitores indicam. Queremos um cantinho para que eles possam fazer o que bem desejarem, que provoque nos nossos idosos nada mais do que sorrisos e descontração”, completa o jornalista.

SONHO EM CONSTRUÇÃO

ACASA deixou de ser uma ideia e está cada vez mais perto de se tornar uma realidade. Nesse momento, a família está pesquisando qual é o melhor lugar para o espaço ser instalado. “Já analisamos bairros preferenciais, como Santa Efigênia, Santa Tereza e Esplanada, uma vez que, do ponto de vista geográfico, eles são mais próximos ou têm acesso facilitado à rede hospitalar, supermercados e ao Centro de BH. Estamos indo com calma”, afirma Nestor. Afinal, lembra ele, de todos os saberes especiais que Maru e dona Fifide, seus pais, ensinaram à família, cautela é um dos mais importantes.

A ideia inicial dos Sant’Anna é comprar, com recursos da família, uma casa com cinco quartos que possa ser adaptada às recomendações do Estatuto do Idoso: portas largas, corrimão, banheiros com suportes especiais, cozinha ampla, barras de segurança, tapetes antiderrapantes, jardins e outros. “Cada quarto será planejado como um miniapartamento, a fim de atender às necessidades e preservar a privacidade de cada um. A frequência média dos moradores será entre oito e dez pessoas, o que atende à demanda da família e aderentes”, explica Nestor, que integra o grupo familiar estruturado para gerir a iniciativa.

ACASA já tem estatuto próprio (leia no box), é uma instituição sem fins lucrativos e não é beneficente. Os associados manterão o espaço com contribuições mensais e recursos de atividades geradas na unidade. “Também pretendemos criar um cantinho ecológico-ecumênico, ao ar livre, onde todos poderão meditar, rezar e conversar com Deus da forma que quiserem.”

Iniciativas como ACASA são muitíssimo bem-vindas, principalmente se levarmos em consideração duas realidades que o país vive. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mais de 70% dos municípios brasileiros não têm instituições para idosos e quase 30% das que existem são privadas. Apenas 7% são mantidas pelo poder público. E o restante são filantrópicas, mas que já não atendem à demanda existente.

O Ipea estima que, em 2040, mais de 27% da população terá mais de 60 anos - aproximadamente 55 milhões de brasileiros. Ou seja: precisaremos de novas instituições, cada vez mais bem adequadas para atender a essa previsão, com atenção diferenciada ao idoso e que garantam a eles o direito a uma melhor qualidade de vida.

Foto: Domínio Público

UMA NOVA HISTÓRIA

Certa vez, uma amiga jornalista nos disse que, quando se atinge a maturidade, é da essência humana voltar às origens, ao seio familiar, a algo que nos lembre das próprias raízes. É para lá que ACASA também nos leva: um novo ninho para se aconchegar, o calor dos pais que se foram revisitado no carinho dos parentes que ficam. Uma casa ideal para quem busca a felicidade e a companhia como alimento para a alma.

“É tarde para viver na mata, mas cedo para ‘redescobrir o sal que está na própria pele’, como cantou Gonzaguinha. Caminhamos à procura de simplicidade, desapego e paciência, franciscanamente”, reflete Nestor, que, junto com Lígia, também pretende ter seu cantinho em ACASA. “É hora de ser um recebedor de carinho”, brinca ele.

Parafraseando Cora Coralina, que em poema nos convidou a exercer nosso direito de ser velhos e felizes, é preciso “não se deixar enterrar”. “Lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes. O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade”, dizia ela. Para quem pretende escrever uma nova história, está aí a receita para se viver em harmonia.

Que a Associação Casa de Santa Anna, que no nome carrega também uma homenagem à Virgem Maria, mãe do Cristo, seja assim: um exemplo forte, vibrante, fraterno e longevo a ser replicado em todo o país.


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