A nova jornada das tartaruguinhas

Rebio Trombetas celebra a soltura e os novos desafios de cinco mil filhotes de tartarugas-da-amazônia
Fauna
Publicado em: 14/02/2019

Assim que saem dos baldes nas mãos pequeninas das crianças, os filhotes de tartarugas-da-amazônia (Podcnemis expansa) percorrem avidamente o caminho entre a praia e o Rio Trombetas. Era uma manhã de sábado, em janeiro último, quando 5.050 filhotes nadaram, pela primeira vez, no rio que se encontra entre a Reserva Biológica (Rebio) de Trombetas e a Floresta Nacional (Flona) de Saracá-Taquera, duas unidades geridas pelo ICMBio na Amazônia.

A Rebio é uma das áreas de referência de desova de tartarugas-da-amazônia. Desde 1981, existe um projeto para conservação da espécie - o “Quelônios da Amazônia” -, executado pelos órgãos gestores da UC, onde estima-se que 5 milhões de filhotes já foram soltos na natureza.

Hoje, a inciativa se chama “Projeto Quelônios do Rio Trombetas (PQT)”, já que visa a preservação de outros quelônios além da tartaruga-da-amazônia, como o tracajá (Podocnemis unifilis) e o pitiú ou iaçá (Podocnemis sextuberculata). O projeto é desenvolvido pelo ICMBio com parceiros como a Mineração Rio do Norte (MRN), o Instituto de Pesquisas Ecológias (IPÊ) e as comunidades quilombolas presentes nas duas UCs. O PQT é uma iniciativa ampla e abrange ações de manejo para a conservação, monitoramento, proteção, pesquisa e educação ambiental.

Foto: Ramilla Rodrigues
Foto: Ramilla Rodrigues

Neste ano, foram soltos 27.862 filhotes de tartarugas-da-amazônia, provenientes de 552 ninhos. “Procuramos espaçar a soltura dos filhotes para não proporcionar um ‘banquete’ aos predadores e assim aumentar as chances de sobrevivência desta espécie”, explica a coordenadora do Projeto Quelônios do Rio Trombetas e analista ambiental do ICMBio, Carolina Moura.

Quem é mais antigo narra histórias de cardumes (como são chamados os grupos de tartarugas) enormes, 8 a 10 mil fêmeas desovando. “Eram tantas tartarugas que elas batiam no casco do barco. Quando chegava a época de pôr ovos, essas praias ficavam lotadas”, lembra José Martins, também conhecido como Seu Boroca. Por causa da abundância houve uma cultura de consumir tartarugas. “Essa é uma espécie onde fêmeas podem pesar 50 quilos e medir até um metro. Por ser uma grande fonte de proteína, elas são muito visadas na região”, conta a coordenadora do IPÊ, Virgínia Bernardes. “Em restaurantes de alto padrão em Santarém, uma tartarugada pode custar cerca de R$ 1.000. Sem dúvidas, é uma iguaria que simboliza status”, complementa Virgínia. Hoje, a tartaruga-da-amazônia é considerada localmente ameaçada de extinção.

“Nós notávamos que as pessoas de outros lugares invadiam as praias, viravam as tartarugas e roubavam seus ovos para vender em Oriximiná ou em Santarém. Na nossa infância, as tartarugas eram abundantes e hoje nós vemos cada vez menos”, explica Raimundo Dias Barbosa, coordenador das comunidades inseridas no projeto até 2011. “Então, hoje a gente quer envolver os jovens que estão cheios de saúde e disposição para cuidar das tartarugas como nós começamos a cuidar”.

Para isso, o ICMBio conta com o apoio dos moradores das comunidades quilombolas da região. O engajamento comunitário iniciou em 2003, quando as UCs receberam apoio do “Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa)”, o que possibilitou a inclusão dos voluntários. Desde 2013, a unidade está inserida no monitoramento participativo da biodiversidade (MPB) e no ano passado implementou os protocolos regionalizados, que vão permitir a comparação dos quelônios com outras UCs.

Para a temporada de 2018, 27 famílias se cadastraram para acompanhar os ninhos e uma das condições para permanecer no projeto é não ser autuado por infração ambiental. Além dos voluntários, o ICMBio dispõe de agentes ambientais contratados para monitoramento permanente da área. “Com isso, também temos um incremento em outras áreas da gestão da UC, como a fiscalização”, elucida a chefe da unidade, Deborah Castro.

Fonte: ICMBio


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