Adolescência urbana (*)

Sergio Myssior *
Espaço Aberto
Publicado em: 20/12/2019

Data de Nascimento:

12/12/1897 - Belo Horizonte nasce imbuída de uma visão positivista, fruto da nova ordem republicana. A antiga capital, Ouro Preto, não mais parecia refletir os ideais daquela época.

Agora com 122 anos de idade, Belo Horizonte estaria em que fase da vida?

Com ruas largas, ordenamento e simetria, as funções da nova capital foram estrategicamente organizadas no tecido urbano, relegando para o segundo plano os aspectos ambientais, sociais e até mesmo culturais do antigo Curral Del Rei.

A infância

O Estado surge inicialmente como o principal provedor e promotor do desenvolvimento urbano municipal, edificando ícones arquitetônicos no estilo eclético, que denotavam a relevância da nova capital no contexto nacional. Embora nas primeiras décadas de vida da cidade a população não tenha ultrapassado os 140 mil habitantes (1930), a partir do Estado Novo (1937) uma nova onda de otimismo e a perspectiva de transformação de Minas Gerais são determinantes para o crescimento de Belo Horizonte.

Novas fronteiras são demarcadas na cidade com a construção das avenidas Antônio Carlos (vetor norte) e Amazonas (vetor oeste). O complexo da Pampulha marca o início da arquitetura moderna genuinamente brasileira, na década de 1940, dotando a cidade de equipamentos de turismo e lazer de grande projeção.

Os primeiros passos

A cidade experimenta um crescimento vertiginoso nas décadas seguintes, saltando de 350 mil habitantes em 1950 para 600 mil em menos de uma década. E alcançando os incríveis 1,2 milhão de habitantes na década de 1960. Mas este crescimento desordenado embute uma série de fragilidades estruturais, como a falta de habitação, saneamento e serviços básicos.

Salto para 2019, ano em que Belo Horizonte completa 122 anos de existência. Somos mais de 5 milhões de habitantes na região metropolitana, formada por 34 municípios. Ando pelas ruas e enxergo duas realidades distintas.

De um lado uma cidade vibrante, onde a cultura é contagiante, seja nas expressões urbanas e populares, na dança, música, no grafite, nas festas ou na arquitetura. Uma das primeiras cidades a implantar o orçamento participativo. O conjunto moderno da Pampulha como patrimônio cultural da humanidade. A cidade criativa na gastronomia, a inovação, tecnologia e a novíssima economia. A paisagem e o meio ambiente. A população se apropriando das ruas, praças e dos diversos vazios urbanos. O carnaval de rua.

Do outro lado uma cidade carente, que alimenta um déficit habitacional crescente, que concentra apenas na regional centro-sul as principais oportunidade de trabalho e renda, equipamentos de saúde, educação e cultura, que penaliza diariamente o cidadão com um transporte de péssima qualidade, consumindo grande parte da jornada de trabalho e do orçamento familiar neste movimento pendular casa-trabalho. Que não conserva adequadamente as praças, os parques e os espaços públicos. Que joga lixo nas ruas, que destrói o patrimônio público. Que convive com enchentes, deslizamentos, dengue e ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, com inúmeras perdas de vida.

Esta também é a Belo Horizonte. E então me pergunto, diante desses dois polos opostos: poderíamos apostar numa reinvenção urbana?

- O que precisamos fazer para que este belo horizonte se desenvolva numa cidade melhor para todos?

Hormônios urbanos

Talvez seja hora de enfrentar as inquietudes, e assim como na adolescência, não aceitar as coisas como estão! Partir do momento de questionar, para experimentar, arriscar e ousar novas formas de pensar e executar os investimentos em habitação, mobilidade e infraestrutura. Hora de não aceitar remendos, mas arregaçar as mangas para, com nossa gente reunida, formular um novo pacto participativo e metropolitano sem deixar ninguém para traz. De exigir sustentabilidade e desenvolvimento. Resgatar nossos ideais positivistas e nosso otimismo com novas práticas! De inovar, transformando com energia, alegria e propósito a Belo Horizonte.

Mas essencialmente, já é hora de acreditar na incrível capacidade de transformação da cidade! Viva Belo Horizonte com muita ousadia!

(*) Sergio Myssior é arquiteto e urbanista, CEO do Grupo MYR e pesquisador sobre sustentabilidade urbana. É comentarista do programa A BH QUE QUEREMOS na Rádio CBN e apresentador do programa URBI, na TV Cultura SP. É membro do Conselho Editorial da Revista Ecológico.


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