BH é berço de uma nova espécie de rã

Espécie, encontrada na Lagoa da Pampulha, só foi descrita agora, mais de meio século depois de registro sonoro captado por naturalista brasileiro
Fauna
Publicado em: 18/12/2018

A Fonoteca Neotropical Jacques VielliardFonoteca Neotropical Jacques Vielliard (FNJV), do Museu de Zoologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), guarda alguns dos registros feitos em campo pelo naturalista brasileiro Werner Bokermann (1929-1995), famoso pelo estudo dos chamados anfíbios anuros, ou seja, rãs, sapos e pererecas.

E um áudio captado por ele, em fevereiro de 1965, traz o canto de uma rã que até então ninguém conhecia e que, naquela época, foi encontrada na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte. Agora, mais de meio século depois, já se sabe que a rãzinha que cantava muito rápido ali é a Pseudopaludicola matuta.

A espécie foi descoberta recentemente pelo biólogo Felipe Silva de Andrade, aluno de doutorado da Unicamp. O achado se transformou em um artigo publicado em novembro no European Journal of Taxonomy.

Andrade assina o artigo com os pesquisadores Isabelle Haga, Mariana Lyra, Thiago de Carvalho, Célio Haddad, Ariovaldo Giaretta e Luís Felipe Toledo. Na publicação, Felipe, como autor principal, descreve a morfologia da rã, as análises de seu material genético, e, sobretudo, seu canto, que é um importante diferencial para essas espécies.

“O canto de anúncio da P. matuta é uma vocalização composta por séries de curtas notas pulsadas, tendo cada nota dois pulsos. A principal diferença é a rapidez com que as notas são emitidas pelos machos”, descreve o biólogo.

Ouvido apurado

Felipe fala da diferença da matuta em relação à Pseudopaludicola mineira, sua parente mais próxima, identificada pelo pesquisador argentino Fernando Lobo, em 1994. No registro de Bokermann, disponível na Fonoteca, o canto da P. matuta acabou sendo confundido por muitos anos com o canto da P. mineira. Não fosse o ouvido apurado de Felipe talvez o equívoco perdurasse. “Os machos de P. mineira emitem as suas notas pulsadas mais lentamente”, esclarece.

A expedição em busca da rãzinha que cantava diferente levou Felipe a Curvelo, na Região Central de Minas, e também ao Parque Nacional da Serra do Cipó. O pesquisador teve sorte, porque na véspera caiu um temporal e as rãs apareceram. “Silêncio no brejo é ruim e, se não chove, o bicho não canta”, explica.

Boa amostra

Segundo ele, é muito difícil conseguir separar o canto de um único indivíduo para ser analisado depois. A espécie costuma ter pouco mais de um centímetro e o pesquisador precisa aproximar bastante o microfone para conseguir uma boa amostra.

Curvelo é o local onde foi encontrada a Pseudopaludicola giarettai, outra rã parente da P. matuta. Foi na descrição desta espécie que o pesquisador reportou que havia outra que vivia no local, ainda não identificada. “Daí surgiu o interesse de voltar a Curvelo. Pseudopaludicola matuta e P. giarettaiocorrem juntas na região. Lá é a localidade tipo das duas espécies”, destaca Felipe.

Ouça o canto.

Fonte: Unicamp


Postar comentário