Depoimentos de testemunhas indicam que Vale sabia de riscos em barragem

CPI da ALMG ouviu ontem (15/07) funcionários de empresas terceirizadas que atuaram para solucionar vazamento em Brumadinho
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 16/07/2019

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Barragem de Brumadinho ontem (15/07), trabalhadores de empresas terceirizadas da Vale reforçaram a convicção de que a mineradora sabia do risco de rompimento da Barragem B1, na Mina Córrego do Feijão. A Alphageos Tecnologia Aplicada, a Frugo In Situ Geotecnia e a Reframax Engenharia foram contratadas para trabalhar na barragem antes da tragédia, que matou 248 pessoas e deixou outros 22 desaparecidos em 25 de janeiro deste ano.

Um dos depoimentos, especialmente, emocionou a todos que participaram da reunião, realizada no Plenarinho IV da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG): o de Antônio França Filho, ajudante da Reframax. No momento em que a barragem se rompeu, ele estava na Instalação de Tratamento de Minério (ITM), que fica 7 metros acima da barragem e a cerca de 1 quilômetro de distância.

“Eu não sabia o que estava acontecendo. Quando a poeira baixou, percebi que estava preso. Gritava pelos meus colegas e não tinha resposta”, contou, chorando, aos parlamentares. A força da lama destruiu a plataforma onde eles estavam e o ajudante foi lançado abaixo, ficando preso em ferragens de equipamentos. Por duas horas, gritou por socorro. Foi ouvido por colegas que voltavam de uma mina vizinha, que acionaram os bombeiros. Dos 59 empregados da empresa que prestavam serviço na mina, 37 morreram na tragédia.

Foto: Daniel Protzner/ALMG
Foto: Daniel Protzner/ALMG

Antônio também trabalhou na tentativa de solucionar um vazamento ocorrido em junho do ano passado. Durante quatro dias, ele ajudou a retirar os rejeitos drenados da barragem. Junto com outro depoente, Romero Xavier, gestor de produção da Reframax, o ajudante afirmou que chegou a participar de treinamentos para autossalvamento promovidos pela Vale. E que a fuga levaria entre 8 e 20 minutos, dependendo do ponto em que estariam.

“Fica claro que o vazamento não foi simples, corriqueiro, como a Vale tenta demonstrar”, afirmou o deputado André Quintão (PT). Segundo ele, o plano de fuga oferecido pela empresa não poderia ser cumprido por ninguém, “pois a lama demorou cerca de 34 segundos para atingir a área administrativa”.

Empresas atuaram em vazamento anterior

A Alphageos Tecnologia Aplicada foi responsável pela instalação – entre abril e junho do ano passado - dos drenos horizontais profundos (DHPs), sugeridos pela empresa de auditoria Tüv Süd para retirar água de dentro da estrutura.

Em 2017, foi contratada a empresa Fugro In Situ Geotecnia, para, entre outros serviços, instalar piezômetros dentro da barragem – instrumentos utilizados para medir a pressão de líquidos dentro da estrutura. E a Reframax Engenharia foi acionada pela mineradora para atuar no vazamento de água e lama, ocorrido após um fraturamento hidráulico que seria decorrente da instalação do 15º dreno no local.

O diretor de Operações da Alphageos Tecnologia Aplicada, Marcelo dos Santos, contestou a informação de que esse 15º dreno tenha causado um fraturamento hidráulico na estrutura da barragem, fato várias vezes repetido por técnicos da Vale em depoimentos anteriores. “O equipamento nem chegou a ser instalado. A perfuração foi feita com uma broca com água, que deveria retornar à medida que rompesse a estrutura. Mas, naquele momento, começou a vazar a dez metros de altura”. Ele acredita que já havia uma perfuração anterior, que serviu de escape para a água. “Após esse problema, o trabalho foi suspenso e não mais retomado”, garantiu Marcelo.

Em seu depoimento, a geóloga Laís Antonelli, da Fugro In Situ Geotecnia, disse que a empresa foi contratada em 2017 para atuar em várias minas da Vale. Entre os serviços prestados em contrato, estavam a realização de 14 sondagens geotécnicas e a instalação de 40 piezômetros e quatro inclinômetros. Segundo Laís, foram instalados todos os inclinômetros e 20 piezômetros na mina B1, a partir de setembro de 2018. O restante deveria ser implantado até fevereiro de 2019, o que não foi mais possível, por causa do rompimento.

“Há uma demonstração de que a Vale sabia do risco de rompimento. Temos mais convicção da irresponsabilidade criminosa da empresa. Eles estavam desesperados tentando tapar o sol com a peneira”, destacou o deputado Sargento Rodrigues (PTB). Para ele, muitos depoimentos à CPI provaram que, desde 2017, a empresa estava tentando resolver problemas na barragem.


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