Diretor da Vale diz que não sabia de riscos da barragem

Em depoimento à CPI, Gerd Peter Poppinga afirmou que não foi informado sobre os problemas da estrutura que se rompeu em Brumadinho
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 04/06/2019

Segundo na linha de hierarquia da mineradora Vale, o diretor-executivo de Ferrosos e geólogo Gerd Peter Poppinga disse à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Barragem de Brumadinho, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que não tinha conhecimento sobre os riscos de estabilidade da barragem de rejeitos B1, da Mina de Córrego de Feijão. A estrutura se rompeu em janeiro deste ano e matou mais de 240 pessoas.

“O que sabia é que a barragem estava paralisada e estava sendo elaborado um projeto de descomissionamento, mas que ainda precisavam conhecer melhor o interior dela”, ressaltou o diretor-executivo.

O depoimento casou estranheza nos parlamentares, principalmente pela posição estratégica que o diretor ocupava na empresa. Popping ainda disse que não conhecia os contratos com as auditoras externas contratadas pela mineradora para analisar a estabilidade da barragem. E nem foi comunicado sobre os vários problemas detectados na estrutura desde meados de 2018.

O relator da CPI, André Quintão (PT), os deputados Sargento Rodrigues (PTB) e Bartô (Novo) e a deputada Beatriz Cerqueira (PT) perguntaram ao diretor-executivo por que a Vale não seguiu as recomendações da auditora Tüv Süd, que atestou a estabilidade, com algumas observações. Uma das orientações era instalar 30 drenos horizontais, para retirar a água de dentro da barragem. Em meados do ano passado, quando foi instalado o 15º dreno, houve uma fratura hidráulica na estrutura e a empresa suspendeu o trabalho.

Gerd Poppinga se limitou a dizer que não tinha conhecimento de que as recomendações não foram cumpridas. E reafirmou que não havia “sinais” de que a barragem poderia se romper.

Os deputados relataram alguns dos problemas detectados na estrutura, além dos drenos e da fratura hidráulica. Foram citados, por exemplo, os alertas de movimentações da barragem, captadas por radares, e distorções nas leituras dos piezômetros, equipamentos que medem a pressão dos líquidos no interior da estrutura.

"Sinais não faltaram", contestou Sargento Rodrigues. O deputado André Quintão lembrou que havia divergência na análise de risco entre as duas auditoras que trabalharam na mina. Acentuou, ainda, que a empresa definiu um padrão de risco e aceitou a declaração de estabilidade, que apontou um indicador muito menor que o seguro. “Prevaleceu a decisão de não acionar o PAEBM (Plano de Ação Emergencial de Barragem)”, lamentou.

Foto: Guilherme Dardanhan/ALMG
Foto: Guilherme Dardanhan/ALMG

Delegação de responsabilidades

Sargento Rodrigues considerou que a declaração do executivo configura uma tentativa de se eximir de responsabilidades. Lembrou que Poppinga já ocupava o cargo em 2015, quando rompeu a barragem de Fundão, em Mariana (Região Central), que deixou 19 mortos. “O senhor, a meu ver, é sim corresponsável por esse assassinato em massa”, disse o parlamentar.

Poppinga justificou que contratos de serviços abaixo de R$ 100 milhões são definidos pelos executivos operacionais - não passam pela diretoria executiva. Ele informou que todas as 130 barragens da Vale tinham laudo de estabilidade. E que a empresa oferece autonomia aos geotécnicos que cuidam do monitoramento e operação dessas estruturas.

Beatriz Cerqueira questionou o depoente sobre a delegação de decisões para técnicos operacionais. Em resposta, ele afirmou que "numa empresa do porte da Vale é impossível gerenciar sem a delegação".

Barragem foi ativo de negociação?

O deputado Bartô questionou o diretor sobre a aquisição da empresa New Steel, que beneficia minérios e rejeitos de mineração, pela Vale. O negócio foi fechado por US$ 500 milhões, em 11 de dezembro de 2018, mesmo dia em que a mineradora obteve do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) o licenciamento para o descomissionamento da barragem de Brumadinho. Bartô afirmou que há denúncias de que a barragem entrou como ativo na negociação. Em resposta, o diretor da Vale negou qualquer relação entre o descomissionamento da barragem e a compra da beneficiadora, afirmando que o negócio estava sendo “fechado muito antes”.


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