Diretores da Vale negam responsabilidade sobre rompimento de barragem em CPI

Em depoimento na ALMG, Lúcio Cavalli e Silmar Silva afirmaram que não sabiam dos alertas de movimentação da estrutura, que deixou mais de 270 mortos e desaparecidos em Brumadinho
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 05/07/2019

Deputados que integram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Barragem de Brumadinho, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), consideraram “evasivas” as respostas dos dois diretores da Vale que prestaram depoimento ontem (04/07), como investigados.

Lúcio Cavalli, diretor de Planejamento, e Silmar Silva, diretor de Operações do Corredor Sudeste da mineradora, negaram ter conhecimento prévio sobre riscos na segurança da Barragem B1, que se rompeu em janeiro na região de Brumadinho. “Não havia sinais de instabilidade. A estrutura foi visitada por especialistas internacionais que não detectaram problemas. Estamos debruçados sobre a questão para entender o que aconteceu”, afirmou Cavalli.

Em vários momentos, o diretor estendeu demais as respostas e irritou os parlamentares. O deputado Sargento Rodrigues (PTB) definiu a atitude de Cavalli como “uma estratégia para não responder” às perguntas. Cavalli também alegou que sua diretoria “não era responsável pelos contratos das auditorias e não se envolvia com questões técnicas”.

O deputado André Quintão (PT) rebateu o executivo sobre a afirmação de que o fator de segurança de 1,3 era uma meta da empresa. O relatório de estabilidade emitido pela empresa de auditoria Tüv Süd verificou 1,09, índice abaixo do considerado “seguro”.

Silmar Silva também adotou o que os parlamentares chamaram de “estratégia comum de defesa”: transferir responsabilidades. Ele alegou que não estava nas atribuições de seu cargo conhecer detalhes relativos à segurança da barragem. Mas esse argumento também foi contestado pela CPI, uma vez que estavam sob sua direção operacional quatro complexos da Vale: Itabira, Várzea Grande, Mariana e Brumadinho. Os dois últimos foram palco das maiores tragédias socioambientais da mineração em Minas Gerais e no Brasil, e que provocaram a contaminação de rios que abastecem a Região Metropolitana de BH com rejeitos de minério.

Silmar também negou ter sido informado de antemão sobre falhas identificadas nas leituras dos piezômetros (que medem a pressão dos líquidos no interior da estrutura) e de deformações na barragem. Um documento, ressaltou ele, apontava que a inspeção de campo teria mostrado que não foram observados sinais de anormalidade e que uma instabilidade possível teria sido decorrente apenas da perfuração do equipamento, sem maiores impactos. "Dei o assunto por resolvido com esse respaldo”, destacou o diretor, sobre o rompimento do 15º dreno da barragem em 2018.

Interesse econômico e negligência

Outro fato abordado pelos deputados da CPI foi a troca de e-mails entre técnicos da empresa, em outubro do ano passado, sobre a segurança da barragem. Segundo André Quintão, apesar de as mensagens terem elementos comprobatórios de que a instabilidade da estrutura era uma preocupação dos técnicos, elas também deixam claro o interesse estritamente econômico da Vale e a negligência com as vidas ameaçadas por um possível rompimento da estrutura.

As mensagens, afirmou o deputado, reportavam a necessidade de a empresa adotar medidas de reforço da segurança, “a fim de reduzir o risco atual”, o que segundo ele agrava a percepção de negligência da mineradora. “O que a Vale estava tentando fazer não era aumentar o fator de segurança, era para remineração”, declarou o parlamentar.


Postar comentário