Diversidade de árvores três vezes maior do que o esperado

Hábitats de áreas úmidas da Amazônia reúnem 3.615 espécies de árvores conhecidas
Meio Ambiente
Publicado em: 04/09/2018

Ao longo das planícies dos rios amazônicos há florestas imensas que passam quase metade do ano alagadas. São vegetações como igapós, pântanos, campinas, mangues e várzeas que margeiam nascentes e depressões de terrenos, constituindo as chamadas áreas úmidas amazônicas.

Segundo um novo estudo, esses hábitats reúnem 3.615 espécies de árvores conhecidas, número três vezes maior do que o previsto e que configura a maior diversidade em áreas úmidas no mundo.

Os autores combinaram dados disponíveis em inventários florestais e coleções biológicas sobre os nove países em que a Bacia Amazônica se faz presente.

“A lista com o nome de todas as espécies é a grande contribuição desse trabalho, que tem acesso aberto. Com ela, será possível avançar em estudos futuros, pois há um vazio de conhecimento botânico sobre as áreas úmidas, principalmente nos afluentes dos rios Solimões e Amazonas. Se houvesse mais inventários, o número de espécies poderia triplicar de novo, rapidamente”, afirma Bruno Garcia Luize, primeiro autor do artigo e doutorando no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Para os pesquisadores, a alta quantidade de espécies arbóreas é indicador de que as áreas úmidas têm papel importante no mecanismo de manutenção e geração de diversidade na Amazônia.

“Tradicionalmente, esse papel é atribuído aos Andes, com seu gradiente climático. Mas o fato de encontrarmos quase todas as famílias e gêneros bem distribuídos, com espécies capazes de colonizar áreas úmidas, sugere que esse ecossistema esteja envolvido no processo de diversificação há bastante tempo”, disse Thiago Sanna Freire Silva, professor no Departamento de Geografia da Unesp e coordenador do estudo.

Intercâmbio entre espécies

As florestas de áreas úmidas têm grande sazonalidade, com variações de períodos de seca e de alagamento, quando as árvores podem ter até oito metros de inundação. Com essa situação limite, as áreas úmidas podem ser consideradas filtros ambientais que selecionam indivíduos e espécies capazes de tolerar inundações e secas recorrentes durante sua vida.

“É um ambiente incrivelmente bonito. O igapó, por exemplo, é uma das imagens mais emblemáticas da Amazônia. Por quatro ou cinco meses, os embriões das árvores ficam submersos, enquanto se desenvolvem. Isso ao mesmo tempo em que macacos passam pelas copas das árvores ou um boto-rosa se alimenta de peixes dentro da floresta”, detalha Luize.

Para os pesquisadores da Unesp, essa alta proporção de árvores – sendo que territorialmente as áreas úmidas compreendem 30% dos 7 milhões de km2 da Amazônia – é dada pelo intercâmbio entre as espécies. Dentro d’água as raízes ficam inundadas e algumas chegam a apodrecer, dificultando a troca de oxigênio.

“As áreas alagadas demandam um metabolismo diferente das árvores e algumas espécies de terra firme também conseguem tolerar as condições de inundação. Porém, estudos mostram que as populações nos diferentes ambientes não têm a mesma performance. Basicamente, isso quer dizer que se você plantar uma semente da mesma espécie de terra firme na área inundada, e vice-versa, elas provavelmente não vão vingar”, disse o pesquisador.

Segundo ele, essa diferença leva a crer que ocorre um ajuste fisiológico ao longo da vida das árvores, ou que as populações que cresceram nas áreas úmidas já estão se adaptando para aquele ambiente.

Fonte: Agência Fapesp


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