É preciso mudar a maneira como se produz alimento no mundo, alerta IPCC

Documento avaliou como o uso da terra contribui para as mudanças climáticas
Da Redação / Ecológico - redacao@souecologico.com
Saúde e Meio Ambiente
Publicado em: 13/08/2019

O modelo de produção agropecuária extensivo praticado nas últimas décadas para atender à demanda global por alimentos tem causado um aumento das taxas de uso e ocupação da terra em escala sem precedentes. Esses processos têm contribuído para a perda de biodiversidade e de ecossistemas, degradação de solo e aumento das emissões de gases de efeito estufa, constata o relatório especial divulgado na última quinta-feira (8) pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU), elaborado por 107 cientistas, de 52 países.

Agência FAPESP
Agência FAPESP

Entre as medidas propostas no texto para melhorar a gestão do uso da terra estão reduzir o desmatamento de florestas tropicais, replantar vegetação nativa para sequestrar e retirar dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e compatibilizar o aumento da produção de alimentos com a sustentabilidade ambiental.

Um sumário para os formuladores de políticas do relatório especial sobre mudanças climáticas e uso da terra do IPCC também foi lançado ao fim de um encontro de cientistas em Genebra, na Suíça, após ter sido aprovado por 195 países.

Elaborado ao longo dos dois últimos anos, o documento avaliou como o uso da terra contribui para as mudanças climáticas e, reciprocamente, como as alterações climáticas afetam a terra. Para isso, foi feita uma revisão de mais de 7 mil artigos científicos publicados sobre o tema.

“Esse relatório é diferente dos demais já publicados pelo IPCC porque foca pouco na redução das emissões de gases de efeito estufa e muito mais nos impactos das transformações que têm ocorrido nos ecossistemas terrestres no clima”, disse à Agência FAPESP Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e um dos coautores do segundo capítulo do relatório .

Outros autores brasileiros da publicação são Humberto Barbosa, pesquisador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Luís Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária, e Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

De acordo com o relatório, desde 1961, 5,3 milhões de quilômetros quadrados (km2) de terra – o equivalente a cerca de dois terços da área da Austrália – foram convertidos para o uso agrícola no mundo. A partir desse mesmo ano, o uso de fertilizantes inorgânicos aumentou nove vezes e o uso de água para agricultura de irrigação duplicou.

O consumo de carne mais do que dobrou em todo o mundo também desde 1961 e, consequentemente, aumentou 1,7 vez as emissões de metano pelo gado. As emissões de óxido nitroso para a atmosfera, em função da aplicação de fertilizantes nitrogenados em pastagem, também mais do que duplicaram.

“Estamos vendo que está ocorrendo um crescimento enorme das emissões de gases de efeito estufa por atividades agropecuárias”, disse Artaxo.

Estima-se que 23% do total das emissões humanas de gases de efeito estufa no período entre 2003 e 2012 derivam da agricultura, silvicultura (produção de madeira) e outros tipos de uso da terra, e que as emissões de CO2 pelo desmatamento diminuíram no início dos anos 1960 e se estabilizaram em altos níveis entre 2008 e 2017.

A redução das emissões de gases de efeito estufa da agropecuária, juntamente com todos os outros setores econômicos, será essencial para que o aquecimento global seja mantido abaixo dos 2 oC, aponta o relatório.

“Terrenos já em uso poderiam alimentar o mundo em um clima em mutação e fornecer biomassa para energia renovável. Mas é necessária uma ação precoce, de longo alcance, em várias áreas e a implementação de medidas de conservação e de restauração de ecossistemas e biodiversidade”, disse Hans-Otto Pörtner, copresidente do grupo de trabalho II do IPCC, em comunicado da instituição.

Fonte: Agência FAPESP


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