Engenheira da Vale sabia de problemas em barragem rompida, diz depoente

Funcionário Fernando Barbosa afirmou em CPI que, meses antes do desastre, Cristina Malheiros teria mandado corrigir corrosão da estrutura em Brumadinho com areia, brita e manta geotêxtil
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 19/06/2019

Há quase duas décadas trabalhando na Vale, o funcionário Fernando Barbosa perdeu o pai, Olavo Coelho, que também era colaborador da empresa, durante o rompimento da barragem da Mina de Córrego do Feijão, em 25 de janeiro deste ano. Em depoimento à CPI da Câmara dos Deputados ontem (18/06), Fernando contou que, sete meses antes da tragédia, seu pai, com mais de 40 anos de serviços em mina, foi chamado às pressas de madrugada para ajudar a engenheira geotécnica Cristina Malheiros a corrigir problemas estruturais na barragem da Vale.

"Começou a brotar lama na grama da barragem, no talude. Não foi pouca, não. Foi muita. Do centro para a ombreira esquerda. Se vazou era porque, por dentro, já estava tudo comido", afirmou Fernando aos deputados. Cristina Malheiros teria mandado corrigir essa corrosão da barragem com areia, brita e manta geotêxtil.

À época, Olavo comentou com os filhos que a solução era insuficiente e que a barragem estava definitivamente condenada. Segundo Fernando, foi a partir daí que a mineradora intensificou as simulações de emergência com a comunidade do Córrego do Feijão, mas não removeu o refeitório nem a parte administrativa – locais onde morreu a maior parte das vítimas.

O treinamento foi ministrado por Cristina Malheiros. “Ela mostrou para nós o mapa certinho de onde a lama iria passar. E falou: 'Se estourar agora, aqui não sobra nenhum'. Por que não mudou (o pessoal) lá para cima, em Jangada, sendo que lá já tinha escritório e tudo? Não sei porque ainda não prenderam essa Cristina. Por que ela não comunicou isso e isolou o pessoal do Córrego do Feijão? Faz uma acareação dela comigo aqui e mais uns 15 ou 20 funcionários!"

Fernando Barbosa passou à CPI os nomes de outros funcionários que trabalharam com o pai dele na tentativa de corrigir a corrosão da barragem. A engenheira Cristina Malheiros chegou a ser presa provisoriamente em fevereiro. Ela depôs à CPI em maio, disse que vistoriou a barragem dois dias antes do rompimento e negou a existência de sinais iminentes de desastre. Para o presidente da CPI, deputado Júlio Delgado, do PSB de Minas Gerais, não será preciso fazer acareação entre os funcionários porque a situação de Cristina Malheiros já está definida. Falta apenas provar a corresponsabilidade de gerentes e diretores da Vale. "Aqui, a gente já chegou à conclusão de que a Cristina está enrolada até o fundo do poço e vai ser presa de novo. Só que a Vale está querendo jogar a bucha só para cima dela. Ela vai ser indiciada. O problema é que ela não é responsável sozinha", ressaltou Delgado.

A CPI de Brumadinho também ouviu Elias Nunes e Marco Antônio da Silva, funcionários da Vale que sobreviveram à tragédia. Eles criticaram os treinamentos e as simulações de emergência anteriores. Marco disse que só se salvou por milagre, ao correr para o lado oposto ao indicado nos treinamentos. "Para todas as pessoas que estavam lá, (a barragem) era segura. No dia, não houve acionamento da sirene e, por isso, fiquei em dúvida se era mesmo a barragem, porque eu estava esperando o barulho da sirene por causa do treinamento. E quanto à questão de correr para a parte que era segura, como a gente foi treinado: os que correram para essa parte, muitos morreram e poucos sobreviveram. Eu corri para baixo, para o lado errado: o lado errado meu, mas o lado certo de Deus. E assim eu consegui."

(*) Com informações da Câmara dos Deputados.


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