"Eu é que me animalizo"

Eloah Rodrigues - redacao@revistaecologico.com.br
Clarice Lispector
Publicado em: 17/12/2013

Originalmente de nome Haia, que significa vida ou clara, Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Ainda pequena, veio com a família para o Brasil quando, então, houve a mudança do nome de quase todos familiares. Eles chegaram por Maceió e, pouco depois, se mudaram para Recife, em busca de melhores condições de vida, e também para aproximarem-se de outros parentes que já viviam lá.

Na adolescência e, após a morte de sua mãe, Clarice se muda com o pai e uma irmã para o Rio de Janeiro, onde cursa a Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil. Nesta época, trabalha como secretária em escritórios de advocacia além de já escrever para a imprensa textos jornalísticos e literários. Mais tarde, emprega-se no Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, órgão do governo Getúlio Vargas, caminhando para sua verdadeira e consagrada profissão de jornalista e escritora.

Ainda estudante, publica seu primeiro livro, o romance Perto do Coração Selvagem, vencedor do prêmio Graça Aranha, confirmando tamanho talento e vocação. Além de autora de vários livros, Clarice torna-se cronista de jornais e revistas como Correio da Manhã, Diário da Noite, Jornal do Brasil e Revista Manchete, apresentando sempre uma escrita profunda e sensível que, frequentemente, fala das dificuldades das relações humanas e amorosas.

Foi casada com diplomata e, depois de viver em várias cidades do mundo, separa-se do marido e volta a morar no Rio de Janeiro, falecendo perto de completar seus 57 anos. Deixa vários e notáveis romances, tantas vezes inspiradores de peças de teatros e cinemas, como O Lustre, A Cidade Sitiada, Laços de Família, A Maçã no Escuro, A Paixão segundo G. H., Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres, Felicidade Clandestina, A Hora da Estrela; este último também ganhador do prêmio Jabuti de “Melhor Romance” e tendo vários deles traduzidos para outros idiomas. Escreve também obras destinadas ao público infantil, como o Mistério do Coelho Pensante e A Vida Íntima de Laura. Todos merecedores plenos de nossa atenção e deslumbramento, pois os textos de Clarice Lispector nos tocam profundamente e têm uma certa capacidade de nos transformar.

Vale experimentar sua leitura e torcer para que a peça “Prazer”, inspirada em fragmentos da obra Uma Aprendizagem, em cartaz pela Companhia Luna Lunera, no Centro Cultural Banco do Brasil, em BH, estenda a sua temporada. Confira, a seguir, alguns trechos de sua obra que a ECOLÓGICO selecionou, também com prazer!

DO FAZER

“A gente só pode fazer bem as coisas que sente realmente.”

“Escrevo simplesmente. Como quem vive. Por isso todas as vezes que fui tentada a deixar de escrever, não consegui. Não tenho vocação para o suicídio. Um jornalista me perguntou: Por que é que você escreve? Então eu lhe perguntei: Por que você bebe água? A honestidade é muitas vezes uma dor.”

“A gente escreve, como quem ama, ninguém sabe por que ama, a gente não sabe por que escreve. Escrever é um ato solitário, solitário de um modo diferente de solidão”

DA ENTREGA

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.”

“Mas, indo bem mais fundo, chego muito pensativa à conclusão de que não existe nada mais difícil que entregar-se totalmente. Essa dificuldade é uma das dores humanas.”

DO ENTENDIMENTO

“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

A montagem da Cia. Luna Lunera em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil em BH: imperdível

DO SENTIR

“Os meus livros não se preocupam com os fatos em si, porque para mim o importante não são os fatos em si, mas a repercussão dos fatos no indivíduo.”

DA FORMAÇÃO

“O meu diploma de Direito foi conseguido somente por pirraça. Uma amiga, cujo nome não vou dizer, disse quando estávamos no terceiro ano: ‘Você é dessas que começam um monte de coisas e não terminam nenhuma’. Isso me aborreceu e, para provar que ela estava errada, comecei a estudar das sete da manhã até às 11 da noite, parando apenas meia hora para almoçar e uma hora para jantar.”

DA LITERATURA

“A literatura deve ter objetivos profundos e universalistas: deve fazer refletir e questionar sobre um sentido para a vida e, principalmente, deve interrogar sobre o destino do homem na vida.”

“Enquanto escrevo o bom é que não dou mostra da grande excitação de que sou às vezes tomada. E por mais difícil que seja o trabalho, sinto uma felicidade dolorosa pois, com os nervos todos aguçados, fico sem a cobertura de um cotidiano banal.”

DA VAIDADE

“Vou lhe confessar minha vaidade. Não é literária, não. Não ligo, aliás não gosto de falar em literatura e nem de badalação como escritora. Mas gosto que me achem bonita. Isto, sim... Me faz um bem enorme.”

DA INTUIÇÃO

“Só a intuição toca na verdade sem precisar nem de conteúdo nem de forma. A intuição é a funda reflexão inconsciente que prescinde de forma enquanto ela própria, antes de subir à tona, se trabalha.”

A natureza presente em sua obra

DO AMOR

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço; ninguém estará perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca.”

DA MORTE

“Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida instintiva e intuitiva, enquanto que a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim.”

DA NECESSIDADE

“A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se um ser humano.”

“Tem gente que cose para fora, eu coso para dentro.”

DA ESPONTANEIDADE

“Não se faz uma frase. A frase nasce.”

DA ANGÚSTIA

“[Angústia] depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive é a palavra de que se orgulham como se com ela subissem de categoria, o que também é uma forma de angústia. Pode ser não ter esperança na esperança; conformar-se sem se resignar; não se confessar a si próprio; não ser o que realmente se é, e nunca se é; sentir o desamparo de estar vivo; pode ser não ter coragem de ter angústia. Angústia faz parte: o que é vivo, se contrai.”

DA ALEGRIA

“A alegria também faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se descontrai.”

DA REALIZAÇÃO

“Nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.”

“A grande recompensa? É o fruto do trabalho.”

DO SER

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser. O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de a “a protetora dos animais”. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la. E eu sentia o drama social com tanta intensidade que vivia de coração perplexo diante das grandes injustiças a que são submetidas as chamadas classes menos privilegiadas. No Recife eu ia aos domingos visitar a casa de nossa empregada nos mocambos. E o que eu via me fazia como que me prometer que eu não deixaria aquilo continuar. Eu queria agir. No Recife, onde morei até doze anos de idade, havia muitas vezes nas ruas um aglomerado de pessoas diante das quais alguém discursava ardorosamente sobre a tragédia social. E lembro-me de como eu vibrava e de como eu me prometia que um dia esta seria a minha tarefa: a de defender os direitos dos outros. No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco.”

DOS ANIMAIS

“Ter bicho é uma experiência vital. E a quem não conviveu com um animal falta um certo tipo de intuição do mundo vivo. Quem se recusa à visão de um bicho está com medo de si próprio.”

“Conheci uma mulher que humanizava os bichos, conversando com eles, emprestando-lhes suas próprias características. Mas eu não humanizo os bichos, acho que é uma ofensa – há de respeitar-lhes a natura – eu é que me animalizo.”


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