Funcionários não identificaram riscos em barragem rompida

Em depoimento à CPI de Brumadinho, colaboradores da Vale afirmaram que não se sentiam inseguros trabalhando no local
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 17/05/2019

Em depoimento prestado ontem (16/05) na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI da Barragem de Brumadinho) na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, funcionários da Gerência de Geotecnia da Vale, departamento responsável por monitorar as estruturas das minas, afirmaram que não foram identificados sinais claros da instabilidade da barragem nos meses anteriores e que não se sentiam inseguros trabalhando no local.

A barragem, que ficava na Mina Córrego do Feijão, se rompeu em 25 de janeiro e deixou mais de 240 mortos. Parentes de pessoas que ainda estão sob a lama oriunda do rompimento da barragem também acompanharam a audiência.

Alguns dos deputados consideraram as respostas dos funcionários evasivas. Os membros da CPI questionaram os três funcionários separadamente. As perguntas trataram especialmente de questões técnicas sobre medições e padrões de segurança utilizados e foram pautadas por declarações de convidados anteriores da comissão que apontaram irregularidades em laudos. Os funcionários disseram não ser responsáveis por atestar a estabilidade das estruturas, mas sim “monitorá-las e realizar interferências recomendadas por outros setores”.

Foto: Luiz Santana - ALMG
Foto: Luiz Santana - ALMG

Cristina Heloísa da Silva Medeiros, uma das funcionárias ouvidas, afirmou que os repasses feitos em relação à segurança eram de que todos os padrões legais nesse sentido eram cumpridos. “Não cabia a mim discordar dos laudos, a gerência de gestão de riscos que acompanhava isso.”

Sobre a medição de segurança, Cristina explicou que ela diz respeito à condição não-drenada das barragens e que a legislação nacional estabelece como valor mínimo 1 – portanto, a medição de 1,09 encontrada em uma das seções da barragem estaria em conformidade com as normas. Outro funcionário da Vale, Artur Bastos Ribeiro, também confirmou que o padrão estabelecido pela lei é de 1 para o fator de segurança.

Os dois funcionários trabalhavam na área administrativa da Vale que foi coberta pela lama e se emocionaram ao falar do acidente e dos colegas mortos. Cristina Medeiros estava de folga no dia do rompimento e Artur Ribeiro estava no refeitório e conseguiu fugir.

Perguntado sobre medições de piezômetros, que teriam indicado anormalidades em medições de colunas d’água dias antes do rompimento da barragem, o engenheiro Artur Ribeiro afirmou que ficou claro, na planilha recebida por ele no dia 23 de janeiro, que houve erro na anotação dos dados e não necessariamente alteração das variáveis que estavam sendo medidas. A automatização dos medidores, que estava em fase de implantação, estaria na origem dos erros, de acordo com ele.

Outro ponto abordado pelos membros da CPI foram indicações de que drenos estariam entupidos e que havia liquefação na barragem, situações que teriam sido identificadas ao longo de 2018. O gerente da área de geotecnia, Renzo Albieri Guimarães Carvalho, afirmou que problemas pontuais em drenos entupidos foram resolvidos com intervenções na estrutura. Após tais intervenções, houve a constatação de que as questões tinham sido superadas e por essa razão os problemas não foram comunicados à Agência Nacional de Mineração e outros órgãos.

O deputado André Quintão (PT) disse que há um “jogo de empurra” entre os funcionários dos diversos setores da Vale, de forma que nenhum deles se responsabiliza pelo rompimento da barragem. A deputada Beatriz Cerqueira (PT) chamou a estratégia de "blindagem pós-crise" da empresa.


Postar comentário