Fundação Renova gasta milhões em publicidade sem concluir ações de reparação

Ineficiência de instituição, criada por Vale e BHP, é exposta em audiência na ALMG
Da redação* - redacao@souecologico.com
Mineração
Publicado em: 08/08/2019

Se a Fundação Renova desse publicidade apenas às medidas que já concluiu para mitigar problemas gerados pelo rompimento de barragem da Samarco (Vale/BHP Billiton), ela não teria nada a divulgar. Em audiência hoje (08/08) da CPI das Barragens, na Assembleia de Minas (ALMG), o diretor-presidente da instituição, Roberto Waack, falou sobre as ações realizadas ao longo dos anos.

Na prestação de contas, ele confirmou gastos de R$ 20 milhões em publicidade e destacou aos deputados a construção de casas, controle de qualidade da água e pagamento de indenizações e reflorestamento da bacia. Mas tudo ainda "em processo" de conclusão.

A ineficiência nas ações de reparação às famílias diretamente atingidas e ao meio ambiente chamou atenção. Ao longo da reunião, ficou claro para os deputados membros da CPI que nenhuma das pessoas atingidas pelo rompimento da barragem em 2015 foi devidamente atendida pela Fundação Renova.

“Tantos anos depois e tudo ainda está 'em processo', nada está resolvido. Enquanto isso, as pessoas vivem em constante incerteza”, avaliou a deputada Beatriz Cerqueira (PT).

Na audiência, o promotor Guilherme de Sá Meneghin enfatizou que as ações mais urgentes só foram tomadas depois de serem judicializadas, o que denota, para ele, o baixo interesse das mineradoras em reparar os danos causados. O auxílio financeiro mensal, por exemplo, só teria sido fornecido diante da ação civil pública.

Outro drama negligenciado pela Renova, conforme o promotor, foram os reflexos para a saúde das pessoas afetadas. Estudos indicaram que o adoecimento mental aumentou em três vezes nos atingidos pelo rompimento e só agora foram feitos repasses financeiros pela Fundação às administrações municipais para contratação de psicólogos e outros médicos.

Diretor da Renova presta depoimento à CPI - Foto: Guilherme Bergamini  / ALMG
Diretor da Renova presta depoimento à CPI - Foto: Guilherme Bergamini / ALMG

Modelo em xeque. O diretor da Renova, Roberto Waack defendeu o modelo da fundação, dando ênfase em avanços na promoção do diálogo entre os diversos entes envolvidos. Mas Thiago Alves da Silva, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), discordou. O integrante do MAB avalia que não há participação social efetiva. Por isso, ele pediu a criação de instrumentos efetivos de fiscalização dos atos de reparação feitos pelas mineradoras. O deputado André Quintão (PT) ressaltou que a CPI pretende criar, na ALMG, uma comissão com essa finalidade.

Em nota à imprensa, a Fundação Renova informou que a entidade destinou, até julho de 2019, cerca de R$ 6,26 bilhões em ações de reparação e compensação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão. Foram pagos cerca de R$ 1,7 bilhão em indenizações e auxílios financeiros emergenciais para cerca de 300 mil pessoas em Minas Gerais e Espírito Santo.

* Com informações da ALMG.

Posicionamento da Renova

A Fundação esclarece que entre os programas definidos pelo Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta (TTAC), há o Programa de Participação Social, Diálogo e Comunicação, que tem por objetivo promover a participação e escuta dos atingidos, bem como dar transparência ao processo de reparação.

O programa, na frente de Diálogo Social, conta com 90 profissionais em campo, call center com cerca de 100 atendentes que recebem em média mil ligações por dia, 20 Centros de Informação e Atendimento, além de canais de ouvidoria. Na frente de comunicação, há ações nos territórios e na imprensa com objetivo de dar transparência. Em 2019, até junho, o desembolso total do Programa foi de R$ 29 milhões, considerando todas as frentes: Participação Social, Diálogo, Ouvidoria e Comunicação. As ações de comunicação tiveram investimento de 3 milhões.


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