Géologo não tinha conhecimento técnico para atestar barragem

César Augusto Grandchamp, da Vale, afirmou que só deu o aval porque “confiava nos consultores que produziram o laudo”
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 31/05/2019

Em depoimento ontem (30/05) à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Barragem de Brumadinho, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o geólogo da Vale César Augusto Grandchamp surpreendeu a todos os presentes ao afirmar que não tinha conhecimento técnico para avaliar segurança de barragens. E que deu o aval “porque confiava nos consultores que produziram o laudo de estabilidade”.

Sua assinatura foi dada a partir de uma “procuração” conferida a ele, uma vez que o responsável seria o gerente de Geotecnia Operacional, mas esse cargo estaria vago durante a tramitação do processo de produção do documento.

“Até onde eu entendo, quem responde por uma gerência quando ela está vaga é o seu superior e não um subordinado. Não consigo entender como foi que o senhor, que estaria abaixo do gerente responsável, foi responsabilizado sem sequer ter conhecimento técnico para isso”, questionou a deputada Beatriz Cerqueira (PT).

Foto: Presidência da República/Divulgação
Foto: Presidência da República/Divulgação

A barragem da Mina de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, se rompeu em 25 de janeiro último deixando mais de 240 mortos e provocando sérios impactos ambientais. Segundo Grandchamp, o fator de segurança da barragem da Mina era de 1,3 em 2017 e esse valor foi sendo reduzido até chegar a 1,09, patamar da última medição antes da tragédia.

“Qualquer mudança nos radares resultava em pedidos de prazo de 30 dias para que eles fossem devidamente regulados. O radar que acusou a movimentação, porém, só estava instalado há sete dias e, portanto, ainda em teste”, afirmou o geólogo. Isso o teria motivado a responder, por e-mail, que era necessário ter calma e “que o andor é de barro” ao funcionário que o alertou sobre as alterações. Inspeções no local não teriam corroborado os dados informados pelo radar e, por isso, tais dados foram considerados errados.

Ricardo de Oliveira, gerente de Meio Ambiente do Corredor Sudeste, e Rodrigo Artur Gomes Melo, gerente-executivo operacional do Complexo Minerador do Paraopeba, mantiveram a mesma explicação dos outros funcionários da Vale ouvidos anteriormente na CPI: classificaram como “incidentes pontuais” e devidamente resolvidos os problemas que a estrutura apresentou desde 2017. Eles negaram responsabilidade sobre a barragem. Junto com Grandchamp, Oliveira e Melo foram presos duas vezes, após a tragédia, mas foram liberados pela Justiça.

“É inacreditável como, diante de tantos ‘incidentes’ na barragem, ninguém da Vale tenha percebido que a estrutura estava em risco”, afirmou o deputado Sargento Rodrigues (PTB). Rodrigo Melo afirmou que foi comunicado por uma das vítimas da tragédia, Alano Teixeira, de que ela não tinha risco de rompimento e que todas as ações de segurança teriam sido tomadas pela empresa. Disse também que a informação que tinha é de que havia um estudo de descomissionamento para eliminar totalmente a estrutura.

Foto: Ricardo Barbosa/ALMG
Foto: Ricardo Barbosa/ALMG

O gerente de Meio Ambiente, Ricardo de Oliveira, negou que tivesse qualquer informação técnica sobre a barragem. “Era uma das unidades em que ia com menos frequência”, completou. Questionado sobre o motivo de sua prisão, ele disse também desconhecer.

No fim da reunião, foram aprovados cinco requerimentos, dois deles pedindo esclarecimentos sobre o licenciamento da barragem à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e à mineradora Vale. A CPI também aprovou requerimento para ouvir especialista em geotecnia de barragens. Fará, ainda, uma visita à Controladoria-Geral do Estado.

(*) Com informações da ALMG.


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