Legado de esperança

Maior reserva privada de Mata Atlântica do Brasil, o Legado das Águas, da Votorantim, ganha destaque como polo de ecoturismo e de desenvolvimento sustentável em SP
Luciana Morais (*) Do Vale do Ribeira (SP) - redacao@revistaecologico.com.br
Ecoturismo
Publicado em: 31/10/2018

No reino verde das samambaias-açu também há muita água, paisagens e ar puro de sobra para a onça-parda, a saíra-sete-cores, a rãzinha-do-folhiço e até para a rara anta albina. É na rica biodiversidade da Mata Atlântica, em meio a árvores centenárias como a figueira, que essas e outras espécies da fauna e flora convivem protegidas numa área de tamanho comparável ao da cidade de Curitiba (PR).

Estamos no Legado das Águas, reserva do Grupo Votorantim que se estende pelos municípios de Tapiraí, Miracatu e Juquiá, no Vale do Ribeira, ao sul de São Paulo (SP). Em suas trilhas, jardim sensorial, orquidário, viveiro de mudas e cachoeiras os benefícios e prazeres que resultam da manutenção da floresta nativa de pé estão literalmente ao alcance dos cinco sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato.

São 31 mil hectares de cobertura florestal em estágio avançado de conservação, constituindo a maior reserva privada de Mata Atlântica do Brasil. Laboratório vivo para pesquisas conduzidas há anos, em parceria com diferentes universidades, o Legado vem despontando agora como um novo polo de ecoturismo.

E assim, segue a vocação natural da região, graças às suas inúmeras belezas, ajudando ainda a fomentar novas oportunidades de geração de renda para as comunidades vizinhas, que registram um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado de SP.

Aventura e contemplação – Garantia de imersão na natureza com graus variados de aventura e/ou de contemplação, o Legado tem atraído visitantes de vários perfis. Desde o ano passado, quando as primeiras trilhas foram abertas ao público, mais de 600 pessoas já passaram pela reserva, institucionalizada em 2012, por meio de protocolo firmado com o governo de São Paulo.

Seus atrativos também incluem passeios de barco e de caiaque pelo Rio Juquiá, roteiros para mountain bike e observação de aves. Com acesso pela Rodovia Raposo Tavares, Rodoanel Mário Covas e BR-116, a base da reserva fica a 26 km de distância. O caminho passa por chácaras e sítios, numa estrada repleta de samambaias-açu. Verdinhas e com folhas abertas, elas fazem lembrar enormes guarda-chuvas e são uma verdadeira festa para os olhos.

Gerente-executiva da Reservas Votorantim, a bióloga Frineia Rezende explica que a samambaia-açu quase foi extinta em muitas regiões, sobretudo nos anos 1980, em razão de sua extração intensiva para a produção de xaxins. Caminhando em parte da travessia Dezembro-Canta Galo, num trecho de cerca de 3 km, ida e volta, essas samambaias, além de bromélias, palmeiras e borboletas salpicam a paisagem.

O canto de pássaros e o barulhinho bom das corredeiras do Córrego Dezembro funcionam como combustível, instigando a vontade de ver logo a cachoeira. Antes de chegar à parte alta, onde há poços para banho, é possível atravessar o córrego sobre pedras, tendo o providencial apoio de um cabo de aço, esticado entre uma margem e outra.

Como chove com frequência na região, a trilha é escorregadia. E, aos poucos, está ganhando mais pontos com corrimãos. A Dezembro-Canta Galo une duas travessias: a Volta Menor, com 12 km, e a Volta Maior, com 23 Km e possibilidade de pernoite em acampamento.

A Volta Maior, explica o analista de Ecoturismo William Mendes, integra o “Caminho da Mata Atlântica”, trilha de longa distância que está sendo estruturada em nível nacional. A ideia é conectar roteiros e travessias desde o Parque Nacional dos Aparados da Serra (RS) até o Parque Estadual do Desengano (RJ).

Mudança de paradigma – Unidade de negócios criada para manter os ativos naturais do grupo, a Reservas Votorantim também administra o Legado Verdes do Cerrado, em Niquelândia (GO). Frineia Rezende ressalta que a mudança de paradigma na gestão e manutenção dessas unidades é um dos diferenciais de atuação da empresa. O Legado das Águas, por exemplo, é uma iniciativa voluntária de conservação e não de compensação ambiental exigida por lei.

“Temos um mote importante, uma vez que não geramos receita para conservar, com base numa filosofia de filantropia. É o contrário: conservamos e protegemos para gerar receita, mostrando que é possível manter floresta de pé, convivendo com ela e catalisando o desenvolvimento do território no entorno.”

Mestre em Ecologia e Recursos Naturais, Frineia destaca ainda o fato de 75% da área de 31 mil hectares abrigar floresta em estágio avançado de conservação. Esse percentual consta de um estudo coordenado pelo professor Ricardo Rodrigues, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). Cerca de 800 espécies vegetais já foram catalogadas, incluindo árvores centenárias.

É o caso da majestosa figueira que dá nome a uma trilha suspensa e na qual casinhas de madeira foram instaladas para atrair abelhas-jataí, espécie nativa brasileira sem ferrão. Assim como a Trilha da Figueira, o Jardim Sensorial tem estrutura adaptada para pessoas com mobilidade reduzida e deficiência visual.

Nele é possível experimentar as diferentes texturas ao toque das mãos, caminhar descalço em trechos com areia, terra e borracha, sentir o aroma e até mesmo degustar algumas das 22 espécies existentes. Há ervas, temperos e plantas usadas na culinária de algumas regiões do país, como o peixinho (Stachys byzantina) e a estévia (Stevia rebaudiana), naturalmente adocicada.

O Gasparzinho – Entre os mamíferos do Legado das Águas, e que também atestam o alto grau de conservação ambiental da reserva, estão o macaco-muriqui – o maior primata das Américas –, a onça-parda e a rara anta albina, única encontrada em seu ambiente natural no Brasil.

O Instituto Manacá, com sede em São Miguel do Arcanjo (SP), coordena um projeto de conservação de antas no Vale do Ribeira. A pesquisa, iniciada em 2016, mapeia os fatores de ameaça e analisa a ocupação do território, além de reunir dados ecológicos e comportamentais desse animal, que tem hábitos noturnos e está em risco de extinção na Mata Atlântica.

A equipe responsável faz expedições mensais à região, na qual foram instaladas 20 armadilhas fotográficas e já percorreu quase 400 quilômetros nas trilhas da área de estudo. Segundo levantamento divulgado em 2012, há 33 populações de anta no bioma, mas apenas três são consideradas viáveis, ou seja, têm mais de 200 indivíduos.

Fica registrada aqui a torcida da Ecológico pelo sucesso desse e de outros projetos de conservação desenvolvidos no Legado. E que na próxima visita, quem sabe, possamos percorrer a reserva à noite e ser recompensados com um ‘encontro’ com o espécime de anta albina macho que habita suas matas e ganhou o sugestivo apelido de Gasparzinho.

Até lá!

(*) A repórter viajou a convite do Legado das Águas.

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ENTENDA MELHOR

* Além de preservar 1,5% dos 9% da Mata Atlântica restante no estado de São Paulo, o Legado das Águas desenvolveu um modelo inovador de reserva privada. Suas atividades são estruturadas em cinco eixos: gestão institucional, capital natural, negócios e sustentabilidade financeira, desenvolvimento territorial e capital humano.

* A criação da reserva é fruto de uma estratégia iniciada pela Votorantim há mais de 50 anos e destinada a proteger as águas do Rio Juquiá, por meio da compra e proteção da maior área florestal possível às suas margens. Lá também se ergueu o complexo energético da companhia, com seis hidrelétricas destinadas a abastecer a produção de outro braço do grupo, a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA).

* No orquidário, que tem mais de 200 espécies catalogadas, o foco do trabalho é o resgate de orquídeas raras, que caem naturalmente das árvores e acabam morrendo quando permanecem no chão da floresta. Após o resgate, as espécies, algumas com flores minúsculas e perfumadas, são tratadas e realocadas em árvores ao longo das trilhas do Legado.

* Vale destacar ainda as atividades do viveiro comercial de mudas nativas, com garantia de produção e rastreabilidade da matriz ao consumidor final.

Saiba mais:

www.legadodasaguas.com.br

www.facebook.com/legadodasaguas/

Fotos: Luciano Candisani


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