A arte da sedução na natureza

Espécies do reino animal apostam no cortejo e na beleza na hora da conquista

Redação - redacao@revistaecologico.com.br
Fauna
Publicado em: 13/03/2019

Foto: Domínio Público
Foto: Domínio Público

No Brasil e em grande parte do mundo, os casais apaixonados têm data marcada para brindar o Dia dos Namorados. Lá fora, no dia de São Valentim, 14 de fevereiro. Aqui, no dia 12 de junho, véspera de Santo Antônio, o casamenteiro. Tudo bem que não exista Dia dos Namorados no mundo animal. Mas, uma observação atenta da natureza pode comprovar que bicho também namora e dá duro para conquistar sua “cara metade”. E fazem isso de um jeito muito divertido, interessante e, algumas vezes, bastante parecido com a raça humana.

A ideia, na hora de escolher o pretendente, é pegar aquele que tem as melhores qualidades entre toda a “turma” disponível. A atração entre os animais funciona da seguinte forma: machos e fêmeas deixam-se seduzir por aquele que ofereça perspectivas de boa reprodução.

A expectativa de ambos é encontrar um parceiro que lhes dê um grande número de filhotes robustos, bonitos e saudáveis e que também sejam capazes de se reproduzir, assim como seus país. O instinto que fala mais alto é o da preservação das espécies.

Na hora da conquista, parodiando o poeta Vinicius de Moraes, as feias e os feios que perdoem, mas beleza é fundamental. O argumento para a exigência é simples. Como sempre há competição entre os bichos e, na hora de ser escolhido, ninguém quer levar a pior e perder para outro colega de turma, convém que os dotes naturais sejam bem aprumados e que os indivíduos apresentem o que têm de melhor.

No mundo animal, em geral, são os machos que se mostram mais bem adornados. E investem tudo para conquistar a atenção da fêmea. Entre os pássaros, por exemplo, quem canta são eles. E entre as aves, o galo, em relação à galinha, é muito mais vistoso! Que o digam suas plumas, a crista vermelha e o canto matinal potente...

Essa beleza toda tem uma explicação: “Os machos apresentam-se mais belo para seduzir a fêmea, que é sempre mais discreta para não chamar a atenção dos predadores, já que na maioria das vezes é ela quem cuida dos filhotes”, esclarece o biólogo Paulo Afonso Zordan.

Foto: Domínio Público
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Sedução e conquista

Na busca do par perfeito, os animais não costumam “dormir no ponto”. E estão certos de que o primeiro pretendente que chega no “pedaço”, mesmo que se esforce para parecer o ideal, nem sempre é o melhor. Sabe qual a artimanha usada pela fêmea para não errar na hora da escolha? Se fazer de difícil. O objetivo do “charminho” é testar a persistência e a qualidade do macho.

O comportamento de roedores, como o porquinho-da-india (Cavia porcellus), já bastante pesquisado em laboratório, serve de exemplo. O macho dessa espécie é um namorador profissional. Cortejar é com ele mesmo! Primeiramente, se aproxima da fêmea sem muito rodeio e a toca com seu focinho. Depois, produz um som grave e joga os quadris de um lado para o outro, em um movimento que parece uma dança bastante ritmada. Quando se aproxima demais, a fêmea lança um gritinho e corre para longe. Como persistente, o conquistador não desiste e segue dançando com afinco para impressioná-la. A cena persiste até a “donzela” ser alcançada e, finalmente, conquistada.

Foto: Domínio Público
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Ciúme animal

No namora dos bichos também há espaço para ciúmes e, pasmem, até para brigas, especialmente entre aqueles machos que procuram defender a posse de suas parceiras. Em época de reprodução, na disputa pela namorada, quando elefantes marinhos (Mirounga sp.) se encontram diante de muitas fêmeas está formado o “circo” para a grande disputa. É quando o elefante se lança, com corpo e dentes, sobre outro da mesma manada. A reação é imediata e a agressividade vem no mesmo tom. Nos choques tremendos, de quase duas toneladas de cada lado, pode haver muito sangue. A luta persiste até que um dos machos desiste e segue seu caminho. O vencedor fica com todas as fêmeas, num verdadeiro harém, e no fim da história acaba se tornando pai de vários filhotes.

Para Zordan, a corte, tão comum entre os bichos, atualmente parece para não ter a mesma importância para a espécie humana. “Os animais têm um jeito especial de atrair a parceira no período reprodutivo, garantindo, assim, a perpetuação da espécie. Nessa hora, a conquista é fundamental. E chama a atenção da fêmea, dando a ela o poder de selecionar o melhor macho. Entre os humanos, essa fase está perdendo lugar para encontros que, de tão fugazes, dispensam a prerrogativa da escolha.”

Criaturinhas bem menores, que não chegam a pesar nem um quilo, como os porquinhos-da-índia, também brigam bastante na disputa pela parceira. Lembram-se da delicadeza desses machos na hora do cortejo às fêmeas? Pois é, aqui a história é outra. O combate toma conta quando o assunto é a exclusividade da companheira. A luta pela demonstração de poder é recheada de ameaças, intimidações e muito barulho que os machos fazem, batendo os próprios dentes.

Muitas vezes, porém, a esperteza dribla a força e fala, ou melhor, “coaxa” mais alto. É o caso de alguns sapos que, no escuro da noite, ficam bem quietinhos perto de outros que se esgoelam de tanto coaxar para atrair a atenção das fêmeas. Quando a pretendente chega, atraída pela cantoria, aquele sapo “come-quieto”, que ficou à espreita, caladinho, a agarra. Economizar energia e esbanjar astúcia tem seu lugar no mundo animal.

Foto: Domínio Público
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Rompimentos

Namoros duráveis nem sempre são possíveis. Os “romances” acabam e muitas vezes isso pode acontecer bem rápido. Às vezes, é mais conveniente para os bichos que essa fase seja curtinha mesmo, como acontece com o pássaro-cetim. Depois de namorar o macho, a fêmea vai embora e cuida sozinha de sua cria.

Mesmo assim, há exemplos de parcerias duradouras na natureza. As araras-azuis, os maiores representantes dos psitacídeos – família de aves em que se incluem periquitos, papagaios, araras e maracanãs -, são um bom exemplo de “até que a morte os separe”. A cumplicidade é tanta que, depois de encontrar o parceiro ideal, os casais fazem tudo, mas tudo mesmo, bem juntinhos. A união eterna pode ser comprovada nos céus que esses pássaros sobrevoam e colorem sempre aos pares.

Aos 18 meses, as ararinhas alçam novos voos, se desvencilhando dos pais para juntarem-se aos bandos de araras solteiras. Nesse ambiente cheio de novidades, o companheiro ou a companheira de todas as horas é escolhido.

O mesmo não acontece entre os macacos muriqui (Brachteles arachnoides) que vivem na Mata Atlântica. Definitivamente, a fidelidade não “faz a cabeça” desses mamíferos. As fêmeas não são nada seletivas. E “namoram” vários machos ao mesmo tempo. Já que “ninguém é de ninguém”, não há brigas de poder, como a dos elefantes marinhos e porquinhos-da-índia. Nesses casos, fica difícil saber quem é o pai dos filhotes e como no reino animal não existe a prática do deste do DNA para descobrir a paternidade, a tarefa de cuidar da cria que vai nascer fica inteiramente a cargo da mãe.


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