ONGs lamentam decisão do Brasil de não sediar Conferência do Clima

Medida é entendida como realinhamento do país frente a questões ambientais
Da Redação / Ecológico - redacao@revistaecologico.com.br
Clima
Publicado em: 29/11/2018

A poucos dias do início da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP) deste ano, o governo brasileiro retirou sua candidatura para sediar o encontro de 2019. Alegando “restrições fiscais e orçamentárias”, o Itamaraty anunciou a decisão à ONU na última terça-feira (27/11). A medida foi lamentada por ONGs e repercutiu na imprensa internacional.

O Observatório do Clima, que compõe uma rede de organizações não-governamentais com sede no país, foi uma das primeiras entidades a criticar a decisão. Em nota, classificou como lamentável o recuo do governo brasileiro, mas disse que isso não surpreende. Pontuou que, com “o abandono da liderança internacional nessa área, vão-se embora também oportunidades de negócios, investimentos e geração de empregos”.

A medida não é vista como inesperada em razão do momento de transição no Palácio do Planalto. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, tem dito que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente e não pode, nas palavras dele, “uma política ambiental atrapalhar o desenvolvimento”.

“Triplo A”

Em entrevista coletiva nessa quarta-feira, em meio a anúncios sobre a nova equipe ministerial, Bolsonaro afirmou que, além dos custos para sediar o evento, é preciso evitar uma controvérsia sobre a criação do corredor ecológico internacional “Triplo A”.

“O que é o triplo A? É uma grande faixa que pega o Andes, Amazônia, Atlântico, de 136 milhões de hectares, ao longo da calha dos rios Solimões e Amazonas, que poderá fazer com que percamos nossa soberania nessa área”, afirmou.

Para a especialista da campanha de Clima do Greenpeace Brasil, Fabiana Alves, o gesto é “uma clara demonstração da visão de política ambiental defendida pelo novo presidente”. Nesse sentido, a ONG destaca a escolha de Ernesto Araújo como novo chefe do Itamaraty.

O anunciado ministro, sublinhou o Greenpeace, “acha que as mudanças climáticas não passam de uma espécie de grande conspiração internacional, algo que serviria como uma agenda de dominação global”.

Pelo mundo

A decisão do Brasil tem implicações internacionais e repercutiu em jornais estrangeiros. No britânico The Guardian, foi lida como “um golpe nos esforços globais para evitar níveis perigosos de aquecimento global”. Já o francês Le Monde enfatizou que a medida foi tomada em meio às preocupações de ambientalista com o programa do futuro presidente, incluindo a fusão dos ministérios do Meio Ambiente e Agricultura.

De toda forma, com a desistência do Brasil, que era o único candidato a sediar a conferência em 2019, a ONU tem agora pouco tempo para definir um novo anfitrião. A expectativa era de que a confirmação ocorresse em Katowice, na Polônia, onde os países voltam a discutir, na próxima semana, medidas para frear a influência da ação humana sobre a mudança no clima.

A metrópole polonesa quer servir de inspiração. Apesar de ainda ter muito a fazer, reduziu nas últimas décadas o uso do carvão como combustível e tem adotado políticas para diversificar a economia. A cidade também está de portas abertas para o enfretamento das questões ambientais, ganhando mais relevância como um centro de negócios, turismo e cultura.

Saiba mais:

  • A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). A entidade reúne os países em conferências mundiais todos os anos. Suas decisões, coletivas e consensuais, só podem ser tomadas se forem aceitas unanimemente, sendo soberanas e valendo para todos os países signatários.
  • Em debate nas COPs deste ano e de 2019 estão as medidas para concretizar as metas assumidas pelos países no Acordo de Paris. O documento foi ratificado pelas 195 partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e pela União Europeia, durante a 21ª Conferência das Partes (COP21). Um dos objetivos é manter o aquecimento global “muito abaixo de 2° C”, buscando ainda “esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5° C acima dos níveis pré-industriais”.

(Fonte: MMA e ONU)

Créditos:
Valter Campanato/Agência Brasil
Pixabay


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