“Que país é este?”

Sem medo de entrar em polêmicas, fazer enfrentamentos e mea-culpas, o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, fala sobre os desafios da representação empresarial e reafirma sua convicção de que este é o momento político para fazer as mudanças necessárias em prol do interesse coletivo
Perfil Flávio Roscoe, presidente da Fiemg
Publicado em: 28/09/2018

Ele assumiu a presidência da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) no fim de maio deste ano. E em pelo menos duas oportunidades desde então, como no almoço-palestra da Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE-MG), em 20 de agosto, e durante coletiva de imprensa exatos 30 dias depois, na sede da entidade, o industrial Flávio Roscoe mostrou ter crenças consolidadas.

Sem medo de entrar em polêmicas, fazer enfrentamentos e mea-culpas, ele falou sobre os desafios da representação empresarial e reafirmou sua convicção de que este é o momento político para fazer as mudanças necessárias em prol do interesse coletivo. Mas, para isso, reconheceu, é preciso que além da articulação empresarial haja diálogo aberto e permanente com a toda a sociedade.

Com sua fala direta e franca, Roscoe também bateu pesado na tecla de que há inúmeras reformas importantes para a retomada do crescimento brasileiro, como a da Previdência Social, além da urgência de reduzir o tamanho do Estado e a burocracia inoperante no serviço público.

É o que você confere, a seguir:

Mais com menos

“Ano passado, o Sistema Fiemg teve um déficit de caixa de mais de R$ 100 milhões e saltamos agora para um saldo positivo de R$ 100 milhões, apenas no segundo semestre. E a casa está funcionando bem, não tem nada fora do lugar. Esperamos fazer mais com menos.”

Impostos

“A indústria já paga 48,6% de todos os impostos cobrados no país. Se o governo não quiser mais indústrias, melhor acabar com tudo logo; e encontrar outro setor para pagar, substituir esse valor.”

Previdência Social

“O maior programa concentrador de renda do mundo chama-se Previdência Social brasileira. Para falar em justiça social, temos de discutir a questão da Previdência no âmago, porque ela paga uma merreca para milhões e um absurdo para poucos, com tenra idade ainda.”

“A Previdência Social representa mais de 50% do gasto público federal. E tende a continuar subindo. Em pouco tempo, deve bater na casa dos 60%. Ninguém vai fazer nada?”

“Essa reforma é vital para o Brasil, porque é boa para a população: ruim é não fazê-la. Ou, pior ainda, ficar sem dinheiro para custeá-la. Infelizmente, é para onde estamos caminhando.”

Cenário atual

“O que me assusta é a sociedade brasileira não entender que a reforma da Previdência Social é necessária. Também me assusta ver candidatos [políticos] defendendo o fim da reforma trabalhista.”

“Não deixarei nunca de apontar o caminho a ser seguido, com base na nossa perspectiva. Não estou dizendo aqui que ela é 100% correta, mas é a nossa percepção.”

Orgulho

“O brasileiro não é picareta. Ele tem orgulho de honrar seus compromissos, gosta de pagar suas contas em dia. Temos de lhe assegurar meios para isso.”

Redução do Estado

“Não dá para discutir reforma tributária sem antes debater o tamanho do Estado. O Estado brasileiro é caro, grande e ineficiente. Como vamos crescer, se o Estado consome quase metade da nossa riqueza, do PIB [Produto Interno Bruto] e não investe nada?”

“A reforma tributária é importante, mas é nada se comparada à urgência da redução do tamanho da máquina pública. Nos últimos 20 anos, boa parte da elite intelectual brasileira migrou para o serviço público, porque nós, das indústrias e empresas, deixamos.”

“É óbvio que temos servidores públicos capazes, comprometidos e competentes. Mas, a primeira reforma que defendo é o fim da estabilidade do servidor público. A sociedade tem de ser maior que o Estado que, por sua vez, deve atender às necessidades do setor produtivo e da população.”

Burocracia

“A burocracia é grande. Só hoje foram publicadas [no Diário Oficial] mais de 700 regulamentações; todos os dias é assim. Que país é este? Será que estamos na direção correta? Infelizmente, várias regulamentações não servem para nada. Por isso, as coisas não andam. Esse é o Brasil que temos.”

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“A solução está no coletivo”

Indignação

“Será que o Brasil chegou à situação que se encontra hoje com a nossa contribuição ou sem ela? Será que sempre estivemos à frente das causas corretas e fomos contundentes como deveríamos ter sido? Não adianta demonstrar indignação sentado no sofá de casa, na mesa do jantar, dentro de nossas empresas ou dialogando apenas entre o empresariado.”

“É imprescindível fazermos um trabalho que envolva todas as esferas da sociedade. A mudança só virá a partir de algo que transcenda os interesses apenas dos empresários ou de uma classe específica, temos de visar ao bem comum.”

“Estamos colhendo agora os frutos de décadas de ausências de enfrentamento da comunidade empresarial. Não estou falando só de Minas Gerais, mas sim do Brasil.”

Mentiras

“O Brasil está no limiar de uma grande e necessária transformação. Vamos ter de ir para a rua no bom sentido, ou seja, dialogar com a sociedade, enfrentar os problemas e divulgar as verdades. Infelizmente, há muitas mentiras sendo contadas ao cidadão brasileiro, que acredita piamente nelas. Nós, não. Somos privilegiados, temos acesso à informação e capacidade de análise.”

Malas

“Temos de fazer a nossa parte nesse processo de mudança. Ficamos quietos muito tempo. Está na hora de termos um posicionamento diferente.”

“Como esperamos mudar a realidade do país e criar um melhor ambiente para empreender? Certamente, não é fazendo as malas para Miami ou Lisboa, como muitos estão fazendo por aí.”

Eleições

Para mim, está claro que, nas próximas eleições, o índice de renovação, tanto no Congresso quanto nas Assembleias Legislativas será pífio. Portanto, temos um paradoxo: ao mesmo tempo em que nunca esteve tão insatisfeita com a classe política quanto agora, a sociedade brasileira deverá ter a menor taxa de renovação dos políticos da história.”

“Parte da explicação para essa realidade é a omissão da sociedade, incluindo aí a classe empresarial. Temos de nos incluir nesse processo e também no bojo da solução. Não há como dissociar o nosso papel do que está acontecendo hoje no Brasil. Portanto, vamos trabalhar em todos os fóruns, sobretudo no Legislativo, para construir leis vocacionadas ao crescimento econômico.”

Solução

“O brasileiro sempre tende a colocar a culpa no outro. Ao longo do tempo e em razão também do cenário adverso, voltamos nossa atuação para dentro das empresas e indústrias: investimos, melhoramos a eficiência e aprimoramos tudo o que foi possível, achando que essa seria a solução. Não. A solução está do lado de fora. Está na sociedade, no coletivo. Temos de dialogar com a sociedade; nós perdemos essa veia.”

Enfrentamento

“Assumi a presidência da Fiemg há pouco mais de dois meses. Fiz e continuo fazendo uma série de enfrentamentos que acredito serem necessários para o bem comum. O enfrentamento é difícil, porque afeta os interesses de certos grupos e pessoas. Quando você trabalhar para retirar privilégios das pessoas, elas fazem de tudo para impedir que isso aconteça, querem te aniquilar.”

Vidraça

“Não é fácil ser vidraça. Ano passado, a Fiemg teve um déficit caixa de R$ 115 milhões. No primeiro dia em que assumi, apresentei um projeto aos conselheiros, cortando R$ 150 milhões do orçamento e prevendo o fechamento de 20 das 200 unidades do Sistema Fiemg no estado. Tivemos, ainda, de demitir um terço do nosso quadro de pessoal.”

“Estamos fechando as escolas ineficientes e vamos triplicar o número de vagas naquelas mais eficientes, gastando a metade do orçamento. Em pelo menos sete casos, a solução para a redução de custos partiu dos próprios presidentes dos sindicatos locais, que propuseram, por exemplo, a união de escolas do Sesi e do Senai existentes numa mesma cidade.”

Líderes

“Nosso papel, como líderes, é levar luz, impedir que mentiras prevaleçam. Somos formadores de opinião, temos essa responsabilidade. Por isso, quero convidá-los a transformar o nosso ambiente de negócio e, assim, transformarmos também a nossa sociedade.”

Impostos

“Nós, empresários, adoramos falar que pagamos muito imposto. Mas, é preciso lembrar que, no Brasil, empresário paga imposto de renda. O restante ele repassa [embute nos produtos]. Mas o cidadão comum não entende isso. Ele bate palmas toda vez que é anunciado o aumento de algum imposto, porque não entende que é ele quem acaba pagando essa conta.”

“Já os governos, afirmam que o imposto será revertido em saúde e educação, mas não é o que acontece, segue tudo para a máquina pública. Temos de mudar o discurso: admitir que o cidadão brasileiro paga imposto demais e não tem retorno algum.”

Lição

“Para mudar e transformar é preciso se expor, não tem jeito de ficar bem com todo mundo. Essa é uma das lições que aprendi. A hora de transformar é agora.”


Licenciamento Ambiental

Em sua apresentação na ADCE, Flávio Roscoe também frisou que o setor industrial responde por aproximadamente 48% das arrecadações em Minas Gerais. E que a maior parte desse percentual, cerca de 70%, é recolhida por cerca de 100 empresas.

“Pensem comigo: temos 853 municípios e só 100 empresas respondem por todo esse montante arrecadado. Quando vale cada empresa dessa? O mais triste é pensar que várias empresas de grande porte vêm sendo impedidas de se instalar em Minas por causa de um pé de pequi.”

Para o industrial, a defesa da natureza é premissa básica. “No entanto, não faz sentido um licenciamento ambiental de um empreendimento, por mais complexo que seja, se arrastar por anos no Estado.”

Em artigo recente, Roscoe afirmou que os excessos da legislação ambiental contribuem, sobremaneira, para a inviabilidade de novos projetos produtivos e a aborta a geração de empregos. Isso num cenário com mais de 13 milhões de trabalhadores ‘expulsos’ do mercado de trabalho brasileiro.

Questionado sobre o assunto pela ECOLÓGICO, ele afirmou que um de seus objetivos, à frente da presidência da Fiemg, é ampliar as discussões com os diferentes setores envolvidos, na busca de um novo modelo de licenciamento ambiental que seja viável, sustentável e possa servir de referência para o restante do país. “Estamos tentando construir um modelo alternativo, contemplando desenvolvimento e conservação ambiental.”

Durante reunião do Conselho de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da FIEMG, também em agosto, Roscoe lembrou que Minas tem avanços a comemorar. “Entre eles, a lei [Decreto nº 46.967/2016], que criou as câmaras técnicas do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), transferindo a competência de decidir sobre processos de licenciamento ambiental menos complexos das Unidades Regionais Colegiadas do Copam para os superintendentes da Secretária Estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).”

Ele mencionou, ainda, a lei [Deliberação Normativa de dezembro de 2017], que cria novas modalidades de licenciamento ambiental concomitante e simplificado, diminuindo a burocracia e a quantidade de fases no processo. “Temos condições de propor e atuar para mudar parâmetros, processos e legislação, para agilizar e simplificar. Podemos fazer com que Minas tenha a melhor legislação ambiental do Brasil, depois de tantos anos tendo a pior e mostrando que é possível ter desenvolvimento sem prejudicar o meio ambiente.”


Quem é ele

À frente da representação de 139 sindicatos e 64 mil indústrias em Minas, Flávio Roscoe, 46 anos, é dirigente da Fiemg há 16 anos. Sócio-diretor do grupo Colortextil, sediado em Belo Horizonte, ele preside o Sindicato das Indústrias Têxteis de Malhas (Sindimalhas). Atuou, ainda, como presidente do Conselho Fiemg Jovem e da Câmara da Indústria do Vestuário e Acessórios da entidade. Foi também integrante do Conselho de Indução ao Desenvolvimento de MG (Coind) e do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). É casado e tem três filhas.

Saiba mais: www.fiemg.com.br

Foto: Sebastião Jacinto


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