Radar apontou deformação de quase 15 mil m² em barragem da Vale antes de rompimento

Funcionário da mineradora afirmou à ALMG que, desde dezembro do ano passado, as alterações na estrutura vinham se ampliando progressivamente
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 02/07/2019

Em depoimento realizado ontem (1º/07) à Comissão Parlamentar de Inquérito da Barragem de Brumadinho, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o operador do radar interferométrico da barragem B-1, da Vale, na Mina Córrego do Feijão, informou que foi detectada uma deformação de 14.800 m² em uma área monitorada da estrutura 11 dias antes do acidente.

Segundo Tércio Andrade Costa, mesmo em outros locais monitorados da barragem, o máximo de deformação atingido até o dia 14 de janeiro ficava na faixa entre 200 e 400 m², ainda assim, em poucos casos. Ele salientou, também, que todas as informações foram repassadas para seus superiores hierárquicos e para diretores da Vale que acompanhavam a situação na mina. Receberam o e-mail com imagens da deformação, de acordo com Tércio, Cristina Malheiros, sua chefe imediata, mas que estava sendo transferida para outra área; Artur Bastos, que a substituiu; Renzo Albiere, responsável pela gestão da mina e a engenheira Andréa Dornas.

“Desde o início das medições em Córrego do Feijão, em março de 2018, a área apresentava uma deformação no formato de uma linha reta. De dezembro em diante, apresentou uma parábola, o que significa uma deformação progressiva”, constatou Tércio. Ele, que opera outros três radares na empresa - dois na Mina de Tamanduá e um em Capão Xavier -, todos em Nova Lima (RMBH), revelou que a partir de dezembro desse ano as alterações na barragem foram se ampliando, “em padrões superiores às que vinham sendo identificadas anteriormente”.

O deputado André Quintão (PT) questionou se o problema com o excesso de água na barragem e a consequente erosão provocada por um dreno instalado, em junho de 2018, foi detectado pelo radar. Tércio respondeu que sim, que o radar mostrou “mudança na aceleração e na velocidade”. E explicou que seria como se a barragem tivesse balançado para frente e para trás.

Foto: Guilherme Dardanhan/ALMG
Foto: Guilherme Dardanhan/ALMG

O operador também destacou que seu notebook, assim como seu login e senha, foram requeridos pelo gerente de planejamento da Vale, Tales Bianchi. Segundo a CPI, o equipamento teria sido confiscado por este último após o rompimento da barragem e encontrado em sua casa pela Polícia Federal. Presente à reunião, Tales Bianchi negou essa versão, dizendo que um delegado da Polícia Civil de Minas Gerais, de nome Dimas, lhe requisitou o computador. Tales informou que, antes de cumprir a ordem, consultou o gerente executivo da Vale e gestor do Comitê de Crise em Brumadinho, Rodrigo Araújo, que autorizou a entrega.

“O fraturamento hidráulico, as alterações nos piesômetros e no radar, tudo isso revela que o rompimento da barragem do Córrego do Feijão poderia ter sido evitado e impedido essa tragédia que deixou quase 300 mortos”, concluiu André Quintão. Sargento Rodrigues (PTB) afirmou não ter dúvida nenhuma da culpa da Vale e propôs que a CPI realizasse uma acareação com os responsáveis: Cristina Malheiros, Artur Bastos, Renzo Albiere, e ainda com César Grandchamp, geólogo da mineradora, que assinou laudo atestando a estabilidade da barragem. “Eles eram os responsáveis e deviam ter tomado as providências. Têm muito a explicar a esta CPI. Estamos chegando aos responsáveis reais por essa tragédia. E graças ao trabalho muito mais meticuloso que as CPIs da Câmara dos Deputados e do Senado, estamos descobrindo tudo com detalhes mostrando que a Vale sabia de todos os problemas”, concluiu.


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