“É preciso reconhecer os problemas e propor soluções para evitar outros impactos socioambientais na mineração”, destaca jornalista na Exposibram

Autora de um livro sobre a tragédia de Mariana, Cristina Serra deu uma verdadeira aula sobre a imagem da mineração no Brasil
Bruno Frade - bruno@souecologico.com
Mineração
Publicado em: 12/09/2019

Com uma carreira de sucesso, a jornalista e escritora Cristina Serra foi uma das convidadas mais aguardadas no painel “Desafios da reconstrução da reputação da mineração brasileira”, no terceiro dia da Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (Exposibram 2019), encerrados nesta quinta-feira, em Belo Horizonte.

Autora do Livro “Tragédia em Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil”, Cristina proporcionou ao público uma verdadeira aula sobre a imagem da mineração no país.

Em depoimento ao portal Sou Ecológico, a jornalista ressaltou que a mineração pode ser exercida com absoluto controle de danos, sem que as empresas se envolvam em desastres. Mas, para que isso ocorra, é preciso que o setor siga uma série de procedimentos. “Aqui em Minas Gerais, a gente viu que, infelizmente, isso não aconteceu. Reputação se ganha ou se perde. Falar e não cumprir faz acontecer o que se repetiu em Brumadinho”.

Foto: Matheus Muratori
Foto: Matheus Muratori

Falta de confiança

O desastre em Mariana completará cinco anos em novembro e até hoje o novo distrito de Bento Rodrigues não foi entregue aos moradores. Para Cristina, é muito difícil convencer a sociedade e, sobretudo os atingidos pela tragédia, de que algo está sendo realmente feito, passados tantos anos, para que as famílias recuperem suas moradias:

Trata-se de um erro de origem em relação ao amparo destinado às populações atingidas. “O acordo não teve a participação deles na proporção que seria esperada. Afinal, é óbvio que em um acordo destinado a discutir a assistência às vítimas, o principal elemento afetado – as pessoas – tem de ser ouvido. Mas não foi o que aconteceu”, frisou.

Cristina destacou, ainda, que a Fundação Renova, apesar dos esforços empreendidos e do volume de recursos aportados desde a sua criação, em 2016, não tem conseguido traduzir sua atuação em ações concretas. “Se repete um erro de origem aí, os atingidos têm que negociar sua indenização ou assistência diretamente com quem foi o seu próprio algoz. É assim que as pessoas se sentem”, pondera.

Marco regulatório

Outro alerta feito pela jornalista diz respeito à criação em curso da Lei Geral de Licenciamento Ambiental. Para Cristina Serra, legislação é um tema de extrema complexidade, principalmente quando se consideram também as normas legais existentes em âmbito estadual. Após o desastre de Mariana, por exemplo, ela lembrou, a Assembleia Legislativa aprovou mudanças na legislação e, após o desastre de Brumadinho, outras alterações foram anunciadas.

“Toda mudança sofre reflexos da atual composição política. Fui repórter também durante 20 anos na TV Globo e nunca vi um Congresso Nacional tão ruim quanto agora. Talvez seja melhor deixar as coisas como estão, apenas com as legislações ambientais, as resoluções do Conama, em vez de criar uma lei que pode tornar o ambiente regulatório ainda mais confuso e que também não tenha força suficiente para evitar novas tragédias”. E salientou: “Nem sempre a lentidão é o mal. Às vezes, a aceleração (de projetos de lei) pode se tornar um mal ainda maior.”


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