SOS Mata Atlântica defende INPE e critica governo: ‘Não são os dados divulgados que prejudicam o país’

Presidente disse que números do instituto prejudicam imagem do Brasil no exterior
Matheus Muratori - redacao@souecologico.com
Política Ambiental
Publicado em: 23/07/2019

A organização não-governamental (ONG) Fundação SOS Mata Atlântica divulgou, nessa segunda-feira (22), uma nota em apoio ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE. A entidade divulgou recentemente estudos sobre a situação do desmatamento na Amazônia. Na última sexta-feira (19), os números foram alvo de críticas do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que questionou os dados e disse desconfiar se o diretor da associação, Ricardo Galvão, não estaria "a serviço de alguma ONG”.

Desmatamento da Amazônia tem avançado, segundo dados do INPE (Foto: Christian Braga/Greenpeace)
Desmatamento da Amazônia tem avançado, segundo dados do INPE (Foto: Christian Braga/Greenpeace)

Na nota, a SOS Mata Atlântica enfatiza o apoio ao INPE e classifica o posicionamento do governante como “desrespeitoso e sem fundamento”. A ONG lembrou que é parceria do instituto desde 1989 e reafirmou a importância da entidade para o desenvolvimento da ciência no Brasil.

O INPE divulgou que mais de mil quilômetros quadrados de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena deste mês, o equivalente a um aumento de 68% em relação a julho de 2018. Segundo a SOS Mata Atlântica, “não são os dados divulgados pelo INPE que prejudicam o país, mas sim o avanço do desmatamento sobre nossas florestas”.

No último fim de semana, Bolsonaro disse que não se encontrará com o diretor do INPE e enfatizou que os dados prejudicam a imagem do Brasil. “Eu não vou falar com ele (Ricardo Galvão). Quem vai falar com ele vai ser o ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) e talvez também ali o Ricardo Salles (Meio Ambiente). O que nós não queremos é uma propaganda negativa do Brasil. A gente não quer fugir da verdade, mas aqueles dados pareceram muito com os do ano passado”.

Depois do posicionamento do governo, diversas entidades, como o Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC , manifestaram apoio ao INPE e repúdio a Bolsonaro. "Em ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de qualquer outra natureza", diz a nota do SBPC.

Leia a íntegra da nota da SOS Mata Atlântica:

A Fundação SOS Mata Atlântica manifesta total solidariedade ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e ao seu diretor, Dr. Ricardo Galvão, diante das recentes contestações e ataques do Presidente da República, com críticas extremamente desrespeitosas e sem fundamento, o que consideramos inaceitável.

O INPE é parceiro da Fundação SOS Mata Atlântica desde 1989 na realização do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. Trata-se de uma instituição de excelência, que produz ciência, tecnologia, conhecimento e formou inúmeros cientistas, acadêmicos e técnicos.

Com reputação internacional, e sempre respeitado pelos governos anteriores, de diferentes partidos e correntes ideológicas, o Instituto é referência pela transparência dos dados e conhecimento construídos, e oferece enorme contribuição para que o Brasil evolua na área espacial e de tecnologia. Além disso, seu trabalho permite um olhar mais atento, com embasamento científico, à agenda da proteção aos nossos patrimônios naturais.

Em nossa visão, ao contrário do que afirmado pelo Presidente da República, não são os dados divulgados pelo INPE que prejudicam o país, mas sim o avanço do desmatamento sobre nossas florestas, que não trazem desenvolvimento, nos afastam do cumprimento de compromissos internacionais, como o Acordo de Paris, e atrapalham o país no comércio internacional.

O Brasil quase extinguiu o bioma Mata Atlântica, considerado Patrimônio Nacional. Há mais de 30 anos, trabalhamos para reverter a situação, missão para a qual o monitoramento realizado em parceria com o INPE é, desde o princípio, aliado fundamental. Não podemos esquecer do nosso passado, nem cometer os mesmos erros. E a ciência é peça-chave para isso.

O INPE está a serviço do Brasil e dos brasileiros, com toda sua excelência técnica e científica. Nós, da sociedade civil, temos muito orgulho dessa parceria, motivo pelo qual fizemos uma homenagem ao Instituto em maio deste ano, no evento Viva a Mata, em que celebramos os 30 anos de convênio e trabalho conjunto em prol da Mata Atlântica.


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