Testemunhas divergem sobre horário de detonação na Mina Córrego do Feijão

Para deputados, os depoimentos à ALMG comprovam que a Vale descumpria orientações de segurança
Da Redação / redacao@revistaecologico.com.br
Mineração
Publicado em: 25/06/2019

Nesta segunda-feira (24/06), a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Barragem de Brumadinho, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), ouviu duas testemunhas fundamentais como parte da investigação para se identificar as responsabilidades sobre a tragédia: o mecânico de mineração da empresa Sotreq, Eiichi Pampulini Osawa, e o “blaster” (aplicador de explosivos) da Vale, Edmar de Rezende.

Ambos relataram, durante o depoimento, horários divergentes para uma detonação que ocorreu na Mina Córrego do Feijão, no mesmo dia do rompimento da barragem B1, que resultou na morte de mais de 240 pessoas em Brumadinho, município da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Segundo Eiichi Osawa, a detonação teria ocorrido aproximadamente a um quilômetro da barragem B1, no horário entre 12h20 e 12h40. Ele não soube precisar se a explosão ocorreu antes, simultaneamente ou depois do rompimento, mas disse que estava de frente para o local da detonação e a viu pessoalmente.

Já Edmar de Rezende afirmou que a detonação só ocorreu exatamente às 13h33, uma hora após o rompimento. Como funcionário responsável pela aplicação dos explosivos, Rezende disse ter ele próprio decidido executar a detonação, uma vez que não era mais viável retirar os explosivos instalados e seria perigoso deixá-los lá. Além disso, seu chefe imediato havia morrido durante o rompimento da barragem (a estrutura veio abaixo às 12h28).

Foto: Daniel Protzner/ALMG
Foto: Daniel Protzner/ALMG

Um terceiro convocado para depoimento nesta segunda era Denis Valentim, funcionário da empresa Tüv Süd, contratada pela Vale para avaliar e atestar a estabilidade de barragens. Valentim seria ouvido pela CPI como investigado, mas não compareceu com base em uma decisão liminar do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que lhe concedeu um habeas corpus.

Para os deputados da CPI, os depoimentos comprovam que a Vale descumpria orientações de segurança. As duas testemunhas concordaram em um ponto: nenhum deles soube de qualquer recomendação ou advertência de relatório da empresa Tüv Süd de que não deveria ocorrer detonação ou movimentação de máquinas pesadas na área próxima à barragem B1, que se rompeu. “Só ouvi isso depois, no jornal”, afirmou Eiichi Osawa. Ambos também relataram que as detonações na Mina de Jangada eram "quase diárias", enquanto que em Córrego do Feijão ocorriam uma vez por semana, aproximadamente.

Outro ponto em comum entre as testemunhas ouvidas nesta segunda é que ambos sofreram perdas de pessoas próximas, que faleceram na tragédia. Eiichi Osawa afirmou que seu cunhado, um funcionário da Vale, continua desaparecido. “Estou sob tratamento psicológico e psiquiátrico no SUS de Brumadinho”, ressalto. Já Edmar de Rezende disse ter perdido três primos no rompimento da barragem, sem falar em muitos amigos. “Eu mesmo poderia estar no restaurante (que foi destruído pela onda de rejeitos), por poucos minutos”, relatou.

Após os depoimentos, os integrantes da CPI elaboraram requerimento para que seja enviado ofício à Vale solicitando a lista de detonações realizadas nas Minas Córrego do Feijão e Jangada, nos meses de dezembro de 2018 e janeiro de 2019, com o registro das cargas explosivas utilizadas. Outro requerimento é relativo ao fornecimento de vídeos de detonações ocorridas em 25 de janeiro.

(*) Com informações da ALMG.


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